terça-feira, 5 de junho de 2012

Arquivos empresariais: património documental e fonte histórica

Não obstante a intenção de salvaguarda dos arquivos empresariais, desde há mais de três décadas em Portugal, nomeadamente a partir de promulgação de legislação específica, "considerando a importância decisiva de que poderão revestir-se certos arquivos de empresas privadas, e em particular das de maior antiguidade, relevância económica ou influência política, para o correcto conhecimento histórico da época contemporânea" (Decreto-Lei nº429/77)*, quem se dedica ao estudo do património da área industrial depara-se com a ausência de documentos privados pertencentes às fábricas que tenham cessado a sua actividade e caído no vórtice da falência.

Perdidos, extraviados ou destruídos os suportes de informação da vida empresarial, detidos a título próprio, outras vias têm de ser seguidas na procura de conhecimento, nomeadamente a visita às instituições que têm à sua guarda os documentos necessários à existência em condições legais da actividade económica: os processos de licenciamento acolhidos nos arquivos detêm elementos de inexcedível interesse para o registo da história económica.

Essas fontes documentais, com valor de prova legal e igualmente possuidoras de valor intrínseco, devido à antiguidade e também ao seu carácter único, revelam-se como possuindo uma valência de documento legal, de fonte histórica e de bem cultural. Esse património documental merece ver acautelada a sua salvaguarda. E igualmente ser revelada a sua existência. Os arquivos e os museus são as instituições que poderão efectuar este trabalho de divulgação e conservação dos testemunhos documentais específicos da história económica de uma comunidade.

*Decreto-Lei nº429/77, Diário da República - I Série Nº239, de 15 de Outubro de 1977 (Estabelece normas relativas à salvaguarda de arquivos e bens culturais pertencentes a empresas privadas)

Alvará de licenciamento industrial nº7-M, da Sociedade Industrial Aliança (proprietária da fábrica de moagem do Caramujo), datado provavelmente de 1920 (Ministério da Economia e do Emprego, Divisão de Recursos Arquivísticos e de Expediente, processo de licenciamento industrial 9197)
 Conceição Toscano

sexta-feira, 1 de junho de 2012

História local em Almada: a cidade e o rio

Assistimos, no avançar do século XX, para além das convulsões políticas originadoras de alterações a nível social, às transformações inerentes ao nascimento de uma cidade - a instalação do Arsenal do Alfeite arranca em 1919 com as primeiras obras de terraplanagem; a partir de 1935 as expectativas de maior empregabilidade da zona são reais e começa a movimentação de população, que não terminará nas décadas seguintes, igualmente potenciada pelas grandes obras públicas, como a construção do Cristo-Rei e da Ponte Salazar, e da vinda para Almada dos estaleiros de reparação e construção naval da Lisnave, na década de sessenta.

Tentando colmatar as necessidades de infraestruturação (mais graves a nível da habitação, transportes e abastecimento de água e electricidade) causadas pela chegada de tantos indivíduos, acelera-se a questão da expansão da área metropolitana para sul e a Câmara Municipal de Almada e o Ministério das Obras Públicas criam novos bairros económicos na periferia de Almada, inaugurando em 1942 o Bairro de Nossa Senhora da Piedade.

A estas décadas de dinâmica social e económica, sucederá a recessão total: o declínio da indústria, nomeadamente do importante sector corticeiro e também da moagem (esta já no final da década de oitenta), a crescente terciarização da economia. 
Almada possui um enorme potencial sócio económico devido à sua localização numa frente ribeirinha. A vários níveis - económico e social, principalmente - o rio Tejo impôs-se durante séculos como elemento estruturador.
Constituindo este território de Almada um dos pontos integradores de uma área maior (área metropolitana de Lisboa), na qual o que poderia parecer uma fronteira territorial sempre foi, não um obstáculo, mas uma ponte de interactividade entre cada um dos territórios componentes dos outros concelhos com margens estuarinas, nomeadamente Seixal, Barreiro, Moita, Montijo, a sul, desde cedo se constituíram seguras identificações, com valências diversas, numa dinâmica de influência da capital.

Na actualidade deste início de milénio, Almada (concelho incluído num dos anéis centrais da periferia dessa metrópole), à semelhança de outras autarquias, aposta forte no seu papel de "cidade da água" e na requalificação da sua frente ribeirinha, assumindo o seu passado histórico-cultural, num processo de constante evolução. O projecto Almada Nascente tenciona devolver à população almadense os espaços devolutos da Margueira e do Caramujo, em vida suspensa desde há décadas, devido aos processos de desindustrialização e inexoráveis evoluções tecnológicas e de competitividade a nível global, reinvestindo em novos usos do território, num tendencial renascimento urbano, cultural, social e económico.

Este reordenamento social e produtivo da cidade originará novos e sustentáveis eixos de desenvolvimento citadino, se efectivamente passar de um projecto traçado num papel para uma realidade material, auscultando-se a população e levando em conta os seus anseios e expectativas. 

EDITAL nº1098/2009, Diário da República Nº218, II Série, de 10 de Novembro de 2009 (Plano de Urbanização de Almada Nascente - Cidade da Água - PUAN)

 O Caramujo, na actualidade. Desapossado do cais e em abandono e degradação.

Conceição Toscano

terça-feira, 29 de maio de 2012

O património: novos valores culturais e histórico-sociais

O património, referência valorizante de uma sociedade, nas suas valências de cultura e como contributo para a construção e escrita da história social e económica, revela, como reflexo, a ideologia e mentalidade predominantes de cada época. O longo caminho das novas perspectivas da noção de património alcançou patamares diametralmente opostos, deixando de abranger somente o que dizia respeito aos grupos sociais privilegiados e alterando o paradigma das suas características aceites, nomeadamente monumentalidade e valor estético ou relacionado com as instituições do poder político e religioso.

Um dos potenciais símbolos patrimoniais, quer a nível do seu significado, quer do seu significante, pode ser um estrutura arquitectónica, mesmo que destituída da sua funcionalidade prática. Esse testemunho físico, ao mesmo tempo documento e guardião, transformar-se-á em memorial, passível de se ler como uma narrativa..Retendo e valorizando informações do passado entrelaçadas com significações do presente, têm a função de auxiliares da memória dos homens.

Hoje em dia, a mudança das mentalidades trouxe ao nosso convívio novos conceitos de património, nomeadamente o industrial, ainda tão desconsiderado pela maioria dos intervenientes e estudiosos e das políticas patrimoniais, sendo ainda incompleto e árido o entendimento cultural acerca do valor que possa conter um legado deste tipo. Tendo perdido o uso económico, essa carência e desvitalização é encarada como perda aceitável num processo de evolução social e económica do ciclo de vida produtivo de uma sociedade.

Fábrica de moagem do Caramujo, Cova da Piedade, Abril, 2010 (classificada como imóvel de interesse público em 1997; publicação: Diário da República Nº42-I Série-B, 19 de Fevereiro de 2002, Decreto nº5/2002)

Num processo de evolução ao longo das últimas décadas (perceptível até a nível legislativo), aceita-se que alguns desses testemunhos da técnica possuam valor patrimonial, tendo em conta critérios como a raridade ou a valência arquitectónica excepcional, assumindo-se que também a democratização alcançou a esfera do património e que os locais de trabalho e os maquinismos operados pelas classes trabalhadoras merecem inequivocamente entrar na esfera da salvaguarda ( Lei nº107/2001, que estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural; publicação: Diário da República nº209, I Série-A, 8 de Setembro de 2001).

As populações, empenhadas em conhecer e valorizar a sua história local, devem conferir um novo sentido a esta herança, através do projecto que os novos sujeitos que dele se apropriam lhe quiserem ou puderem atribuir.
Conceição Toscano

domingo, 27 de maio de 2012

As bibliotecas escolares - Exposição do livro antigo, em Almada

A Biblioteca Escolar/Centro de Recursos Educativos da Escola Secundária Cacilhas-Tejo é uma instituição inserida na comunidade escolar e envolvente local que disponibiliza recursos documentais ao serviço da educação. Está situada numa das praças de Almada, numa zona onde ainda existem recordações industriais numa convivência de dinâmicas urbanas.

Uma das possibilidades de historiar percursos de dinâmicas na área educativa e igualmente a nossa vida cultural é perscrutarmos as mensagens contidas nos livros pertencentes aos seus fundos documentais e até recorrendo a exemplares vindos de algumas colecções particulares.

Os livros constituem repositórios de escrita particular e colectiva. Ao servir de veículo de transmissão do conhecimento num tempo actual e para as gerações vindouras, assumem um papel essencial na vida da comunidade. Estes documentos escritos à guarda de lugares de conhecimento e de educação, como as bibliotecas, servem de suporte para a fixação da nossa memória colectiva, adquirindo igualmente, no decurso do tempo e ao longo da história dos homens, um valor patrimonial intrínseco e inquestionável. Certos livros possuídos por particulares podem em complemento a esse valor de comunicação, quer científica, quer ficcional, adquirir uma carga extra de testemunhos de vivências particulares e de memória de uma época.

A exposição «O Livro Antigo na BECRE: Do final do século XIX à primeira metade do século XX» inaugura no próximo dia 28 de Maio, prolongando-se até 30 de Junho. O visitante terá a oportunidade de ver espécimes com algum valor e até raridade, muitos deles com uma carga de memória emotiva reunida ao longo das vidas dos seus proprietários.

Os livros com valor patrimonial escolhidos da colecção da BECRE foram reforçados com outros, objecto de empréstimo por parte de professores da própria escola e de um dirigente de uma associação local.

Aqui deixamos alguns exemplos de obras que podem ser apreciadas:

Edições facsimiladas de «O Príncipe Valente»; reedições de «O Mosquito» e «O Torpedo 1936»; «Chimie (Notation atomique)», de J. Langlebert (45ª ed, 1894); «Manual do destillador e licorista», do Editor Arnaldo Bordalo (1915); «Os crimes da formiga branca: confidencias viridicas e sensacionaes d'um Juiz de Investigação», folhetins com edição de J. Rocha Júnior (1914); exemplares da «Crónica feminina», «Ilustração Portugueza» e «Eva»; «A musa em férias (Idílios e sátiras)», de Guerra Junqueiro (3ª ed., 1896); «Le darwinisme», de Édouard Hartmann (5ª ed., 1894); «A organização cristã da família: Conferencias prègadas na Sé de Coimbra, no Advento de 1916», de José d'Almeida Correia (1917).

A presente iniciativa aqui divulgada, assim como outras anteriormente realizadas, resulta de um trabalho de equipa, numa dinâmica empenhada na valorização da missão de uma biblioteca escolar inserida numa comunidade, a nível territorial e escolar, com a qual tem estabelecido parcerias de trabalho em prol da formação dos seus alunos e público frequentador em geral.
 Pormenor de uma das áreas da exposição (alguns dos exemplares mais antigos e em estado de conservação mais delicado, com as respectivas fichas de catalogação do tratamento documental)

Conceição Toscano




quinta-feira, 24 de maio de 2012

As bibliotecas escolares e o património cultural

Nos dias de hoje, qual a importância e a abrangência do papel das bibliotecas escolares, como instituições construtoras de conhecimento e contribuindo para um enriquecimento do património cultural das populações?

Um  percurso  que  se  vai  construindo  todos os dias - da  memória  passada à  actual;  memórias e
conhecimentos essenciais à vida de uma comunidade.
As bibliotecas, como as conhecemos hoje, são  um espaço que detém  um poder de custódia  de um
património cultural específico - bibliográfico - assumindo funções de divulgação e guarda desse espólio, com fins educativos, de formação e de cultura.
A  sua  evolução ao  longo  dos  tempos  trouxe  ao  nosso  convívio tipos  diferentes  com  objectivos
aparentemente  diversos, mas  que fundamentalmente se  complementam a  partir de  estratégias  de
domínio territorial e de relacionamento a nível de utentes.
Hoje em dia, existe um leque variado de tipos de bibliotecas, cada um orientado para diferentes missões e actividades, orientadas por uma política optimizada de constituição e desenvolvimento de colecções.
Encontramos desde a Biblioteca Nacional, bibliotecas universitárias, bibliotecas municipais, bibliotecas escolares.

Estas  últimas  têm sido alvo  de  profundas evoluções e têm  percorrido um  caminho de  maturidade
através de um trabalho em rede partilhado entre a tutela ministerial, a  biblioteca concelhia e a  escola
onde se insere a  biblioteca  escolar e centro de   recursos, acolhendo documentação de temáticas, não somente adaptadas aos currículos, numa diversidade de suportes.
A  missão  destas   instituições, sediadas no  espaço  escolar (meio  vocacionado para a educação e
ensino), visam um preenchimento total do conhecimento, ao serviço do enriquecimento curricular formal e da formação do cidadão, conhecedor da sua história, local e nacional, e de posse das ferramentas intelectuais capazes de o orientar para uma integração plena na vida colectiva.

Conceição Toscano

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Cova da Piedade - a urgente intervenção de reabilitação da zona estuarina

Em 2010, na sequência da realização da minha dissertação de mestrado, na área do património industrial, fui confrontada com a rápida degradação do conjunto arquitectónico da moagem, depósitos de lixo e presença de desalojados vivendo em meras condições de rua, janelas encerradas com tijolo para evitar a entrada de intrusos.
Pormenor da fachada principal da fábrica de moagem do Caramujo, virada ao antigo cais, Agosto de 2010.

Fachada posterior da fábrica, Rua Manuel José Gomes, Agosto de 2010.

A área ocupada pela Lisnave está a ser intervencionada, nomeadamente ao nível da descontaminação de solos e construção da estruturação sustentável necessária à dinamização dos projectos de revitalização urbanística (e cultural) para o local.
A perspectiva abrangente de uma área a necessitar de urgente reabilitação para uma ainda possível e desejável revitalização - o Caramujo, com a fábrica de moagem (classificada como imóvel de interesse público), e ao lado a Margueira, com os "restos" da Lisnave, bordejando o estuário do Tejo, Março de 2010.

Ocupando uma área extensa, este cemitério, onde ainda subsistem testemunhos que referenciam a actividade encerrada de reparação naval, empresta ao estuário do Tejo, em complemento à decrepitude do edifício imponente da moagem do Caramujo, um enquadramento, cuja leitura pictórica demonstra, mais do que meras palavras o poderiam efectivamente realizar, a dimensão da desindustrialização sofrida a nível local.

Clara ilustração da fisionomia de uma recessão industrial da Cova da Piedade.


Conceição Toscano

terça-feira, 22 de maio de 2012

O património e a história local em Almada e Seixal

Realizou-se nos dias 19 e 20 de Maio, o Encontro sobre Património de Almada e Seixal, organizado pelo CAA-Centro de Arqueologia de Almada, no âmbito das comemorações do seu 40º aniversário. Ao longo das várias sessões, foram apresentados estudos acerca do património arqueológico, religioso, imaterial e a história local de diferentes freguesias dos concelhos de Almada e do Seixal.




Aqui deixo o elenco das temáticas abordadas:

- «Grutas de S. Paulo: O IV e III milénios em Almada», Luís Barros;
- «Al-madan no contexto da ocupação islâmica da Margem Sul», Maria Inês Raimundo e Vanessa Dias;
- «Três sítios e quintas históricas entre Corroios e Amora», Rui Mendes;
- «Pelos caminhos do Cruzeiro de Vale de Rosal», Vitor Manuel Reis;
- «Trafaria, a história da formação de uma identidade», Carlos Barradas Leal;
- «Breve história da Costa da Caparica», Francisco Silva;
- «Memórias da Caparica pela pena de Bulhão Pato», Rui Caetano;
- «Património naval do Seixal», Elisabete Curtinhal (Ecomuseu Municipal do Seixal);
- «A indústria vinícola em Cacilhas nos séculos XIX e XX», Luís Milheiro;
- «Os espaços e as sociabilidades  das classes trabalhadoras entre 1890 e 1930: os casos de estudo na margem sul do Tejo», Joana Dias;
- «Memórias do cinema em Almada», Ângela Luzia e Margarida Nunes (Museu da Cidade de Almada);
- «Educação patrimonial em Almada - O papel do CAA em Almada», Elisabete Gonçalves.

Estando patente a preocupação com a educação social pelo património, este tipo de iniciativas levadas a cabo pelo CAA, constitui um reforço da divulgação do empenho de vários investigadores no campo da história local e do património, em conjunto com as diversas actividades realizadas no decurso do ano por esta instituição, sempre com o objectivo do alcance do conhecimento necessário e obrigatório para a preservação do património - a aprendizagem geradora de uma consciência de salvaguarda do património e como construção essencial na estruturação de uma memória colectiva.

Conceição Toscano