quinta-feira, 5 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - Complementaridade arquitectónica e artística

Em Portugal, o século XVIII é considerado um período de construções. De norte a sul do país, nobreza e burguesia constroem palácios, solares e quintas de recreio; à semelhança do espaço habitado, encontramos uma complementaridade nos jardins de cada uma dessas estruturas.
Nesta quinta, que marca o território da Sobreda com uma impressionante presença física, o seu conjunto edificado, misto de solar residencial e casa agrícola, apresenta características de arquitectura civil e religiosa. Ao longo de três séculos de uso, os seus ocupantes aqui deixaram as suas marcas pessoais, ao nível da evolução de actualizações da moda e dos usos referentes ao espaço habitado, casa e envolvente exterior, aí reflectindo modos de vivência, hábitos sociais e culturais.

O seu património azulejar, visto num percurso de três séculos de arte e técnica decorativa em Portugal, é rico e diversificado. Aqui encontramos os painéis figurativos em contexto profano, destacando-se os exemplares do "salão das mentiras" no piso nobre do solar e os do patamar da escadaria principal, além dos "bancos dos jogos tradicionais", no jardim; os revestimentos padronizados nos corredores da habitação; os painéis figurativos religiosos, nomeadamente na Capela de Santo António e no banco da entrada principal do jardim (Ver texto «Passeios patrimoniais na nossa terra - Sobreda»).

O Solar dos Zagallos apresenta no corpo principal uma escadaria de acesso exterior, central, com um patamar revestido frontalmente de belíssimos painéis, nos quais o artista, em pinceladas de azul, pintou cenas figurativas, emolduradas por motivos geometrizantes e de enquadramentos laterais de meninos-anjos suportando capitéis encimados de jarros com flores. O conjunto dos quatro painéis acentua o impacto visual da entrada do solar, em conjugação com a perspectiva elevada.
Patamar da escadaria principal exterior, painel à esquerda
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à direita
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à esquerda
Na habitação, a escolha do revestimento para as zonas de passagem recai sobre o azulejo de padrão. Devido à repetição de elementos seria menos dispendioso cobrir estas áreas com painéis não figurativos, sendo os historiados reservados para o salão e escadaria principal.
Corredor do piso superior do edifício principal, apresentando composição formal e requintada com medalhão central
No salão nobre, o "salão das mentiras", entramos num local de revestimento de todos os espaços disponíveis entre as molduras das portas e janelas de sacada e a lareira. Os painéis, pensados e calculados pelos artífices para cada intervalo parietal, apresentam cenas figurativas, enquadradas por belas cercaduras polícromas, de dourados e manganês principalmente, encimadas lateralmente por jarros de flores, enquanto frutos coroam centralmente todo o conjunto recortado e saliente na parede. Duas figuras de meninos-anjos, em pinceladas recatadas de azul, dispõem-se de cada lado da moldura, sendo rodeados pelos volteios dourados. Pinceladas de esbatimento em manganês encimam e formam base com as belas e envolventes asas de morcego.
"Salão das mentiras"
"Salão das mentiras"
As cenas figurativas, em azul sobre o branco cerâmico, são cenários campestres, sempre ligados a rios. Barcos ou veleiros e edifícios antigos, por vezes a vista alongando-se numa distância visual de azuis cada vez mais esfumados.

O seu corpo adossado, construído nos inícios do século XIX, é de estilo simples, pombalino, fazendo a ligação da casa principal à Capela de Santo António.
Entrada (piso térreo) do corpo adossado, com formalismo mais simples do que o do piso nobre
Ao invés de os diferentes estilos se oporem, estamos perante uma complementaridade, quer a nível arquitectónico, quer de decoração artística, de revestimento azulejar, de talha, de pintura e de estuque. Um entrosamento excepcionalmente alcançado numa evolução de três séculos, acompanhando as vivências sociais dos seus moradores, adequando-se parte edificada e decorada, numa simbiose e coordenação de funções e formalismos.

Mas o Solar dos Zagallos apresenta outra valência importante, para além do seu valor patrimonial: a de documento vivo de um passado, perpetuado através dos tempos. As fontes de conhecimento da nossa história são muito diversificadas e podem incluir os testemunhos gravados a pedra ou pintados na cerâmica.
O azulejo, como entidade patrimonial multifacetada, transmite-nos conhecimentos não somente estruturais da habitabilidade, decorrentes das suas características decorativas e funcionais, mas igualmente de suporte cénico de vivências sociais e históricas.
Seguindo modas e gostos consoante as épocas atravessadas, o azulejo ajuda-nos a estabelecer cronologias, não somente quanto à evolução da arquitectura e artes decorativas, mas também ao nível do estudo da história, através da análise dos testemunhos materiais de suporte à própria vivência quotidiana (exemplo também a perceber nos seus espaços exteriores).

Terminada esta visita aos espaços arquitectónicos de habitação, agendo para um próximo dia o passeio pelos jardins, igualmente reveladores de um lugar de memória, um espaço de criatividade, um local de encontro do contemporâneo com o antigo.

Conceição Toscano





terça-feira, 3 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - abordagem histórica e patrimonial

Entrada e pátio do Solar, com o patamar da escadaria principal revestido a azulejo
O Solar dos Zagallos, também denominado de Quinta da família Piano ou Quinta dos Pianos, situado na freguesia da Sobreda, para além de um património fulcral na vida local, transformou-se num pólo irradiador de cultura, mercê das várias funções aqui disponibilizadas pela autarquia de Almada.
Cartela identificativa de património municipal situada na entrada principal do Solar
Considero este solar merecedor de estudos que contemplem a sua vertente arquitectónica e as artes decorativas e igualmente a sua história social reflectida no suporte material das estruturas de habitabilidade.
Penso que um dos pontos de destaque patrimonial é sem dúvida o seu espólio azulejar, o figurativo (o religioso e o de carácter profano) e o de padrão ornamental.
Após o passeio de visita ao património religioso da Sobreda, pensei que seria interessante complementar esse percurso com alguns textos e imagens que nos aproximassem de um espaço polivalente e rico de história, apresentando hoje uma introdução e mais tarde alguns desenvolvimentos possibilitando outro tipo de visita, nomeadamente dedicada ao azulejo de cariz civil ou profano, quer padronizado, quer figurativo, nas suas várias e sucessivas desenvolvências no tempo.

A visita que aqui tentarei trazer tem como suporte as fotografias e textos que produzi na sequência de um trabalho efectuado em 2008. Durante as férias que se avizinham é minha intenção rever os espaços então percorridos nessa etapa individual de descoberta deste edifício, talvez potenciando outros projectos ou até tão somente mais registos fotográficos que serão sempre fonte de divulgação do seu valor histórico, artístico e cultural.
Nessa altura, não tendo tido acesso a áreas ainda não intervencionadas e restauradas, concentrei-me em duas entradas, a lateral, no corpo adossado, e a principal na escadaria do pátio; no corredor do piso superior do solar e no salão apelidado de "salão das mentiras"; no recanto mais original do jardim, junto à estufa, percorrendo, no entanto, o restante espaço ajardinado para me deter na casa de fresco.

É, pois, um convite a uma visita que se desenrolará em várias fases, vários dias de escrita e possibilidade de leitura da vossa parte.
Cartela colocada no patamar da escadaria principal de acesso ao piso superior do Solar
Conceição Toscano

domingo, 1 de julho de 2012

Passeios patrimoniais na nossa terra - Sobreda

Realizou-se no sábado, dia 30 de Junho, o passeio de visita ao património religioso da Sobreda, com organização do Centro de Arqueologia de Almada e da Junta de Freguesia da Sobreda. Este evento estava integrado na festa anual do Solar dos Zagallos, um dos espaços culturais da autarquia de Almada, destinado a funções culturais e pedagógicas.

A partir do local do encontro, à porta do Solar, no Largo António José Piano Júnior, situado na parte antiga da vila da Sobreda, o percurso foi-se desenrolando, levando os participantes a conhecer o património religioso público, nomeadamente a Ermida de S. Sebastião, que alberga as imagens do antigo Convento dos Agostinhos Descalços, segundo Francisco Silva (o técnico do Centro de Arqueologia de Almada, nosso guia).
Parte superior da fachada principal da Ermida de S. Sebastião
O passeio continuou com a visita a outra tipologia do património religioso da Sobreda: as capelas particulares. E entramos no espaço do Solar dos Zagallos.

Banco existente no Solar dos Zagallos, com temática bíblica
Capela do Senhor dos Passos
A Capela do Senhor dos Passos é de arquitectura claramente barroca; no entanto, os frontões laterais da fachada principal não são de feitura barroca, na opinião de Francisco Silva. Os painéis de azulejos da fachada narram o calvário de Jesus. 
No interior da capela, a partir do revestimento azulejar das suas paredes, encontramos a narrativa da parábola bíblica do filho pródigo.

O percurso continua até à Capela de  Santo António do Caiado.
Capela de Santo António do Caiado, fachada principal
Pormenor do tecto da Capela de Santo António do Caiado, com um trabalho belíssimo de embrechado
O seu interior, embora de reduzidas dimensões, apresenta-se como um exemplo do trabalho em técnica de embrechado - utilização de porcelana partida e conchas.

A visita termina na Capela de Santo António, que está integrada no Solar dos Zagallos,  mas tem porta principal para o Largo, uma vez que, embora capela privada, tinha utilização pública.
Interior da Capela de Santo António, a mais importante das capelas do Solar. A porta que se vê dá acesso para a rua

Perspectiva do tecto da Capela de Santo António; trabalho mais recente do que o revestimento das paredes, na opinião do nosso guia
Do seu rico revestimento azulejar das paredes constituído por dez painéis, oito deles relatam, em belas composições figurativas, os milagres do Santo. Os seus sermões também são apresentados ao visitante.

Pormenor do revestimento de azulejos: sermão de Santo António aos peixes.
O altar do período barroco revela qualidade artística, já com alguma erudição, constituindo uma peça exemplar e das mais ricas na freguesia da Sobreda, segundo Francisco Silva.

Pormenor do altar da Capela de Santo António, com o seu trabalho em talha dourada
Imagem de Santo António, colocada em nicho lateral no retábulo do altar da Capela de Santo António; datada provavelmente do século XVII, de autor desconhecido
Em 1982 a Câmara Municipal adquiriu o Solar, tendo as obras de recuperação, remodelação e restauro ficado a cargo do arquitecto Vítor Mestre. Durante as intervenções sempre se procurou manter as características originais do conjunto edificado e restantes estruturas. O ponto alto do restauro foi a intervenção no altar da Capela de Santo António da Sobreda.
A importância histórica do Solar reside no facto das capelas existentes na propriedade estarem ligadas às festas populares tradicionais da região, com entrada facultada pelos proprietários, a família Zagallo. A importância desta imagem deve-se ao facto histórico de o culto a Santo António estar presente desde há séculos na Sobreda.
A imagem do Santo está colocada num nicho de um retábulo de talha dourada, apresentando um nicho central, de maiores dimensões, vazio, e dois laterais, iguais, de menor dimensão, estando o da esquerda ocupado pela referida imagem de Santo António. Os nichos estão forrados a seda cor de vinho. Devido à cor negra da indumentária do Santo e do livro, sobressaem unicamente do fundo o rosto e as mãos, efeito visual pretendido pelo artista e pelos responsáveis da colocação da peça no local. Esteticamente a imagem transmite um belo efeito de beatitude interior e de modesta apresentação, sem realce físico corporal.
Quanto aos acabamentos a sua pintura é policroma, sendo as seguintes as cores presentes: preto, dourado, castanhos, cor pele e branco. A sua matéria constituinte é o barro e o sisal.
O seu estado de conservação é deficiente, posto que apresenta colagem evidente e imperfeita na mão direita; a colagem presente no pescoço é pouco perceptível. Há sinais de desagregação na parte inferior da imagem com perdas de camada cromática. A imagem não está completa, uma vez que não apresenta a imagem do menino sobre o livro (só existem restos irregulares de barro). A pintura e o seu estado de  conservação apontam para uma global valorização.

Estas iniciativas são uma forma excelente de divulgação da riqueza histórica a nível local. Devido à importância da tradição religiosa presente na memória colectiva da comunidade da Sobreda, o passeio constituiu uma oportunidade de conhecimento de um património de cariz específico, o religioso. 
Os passeios têm uma dinâmica aberta de relacionamento entre os organizadores e os visitantes, posto que são solicitadas sugestões de outros passeios e demais ideias que o público interessado possa querer propor.

Da minha parte, atribuí nota máxima e ainda fiz algumas propostas. As conversas acerca do património cultural e os conhecimentos que se fazem durante estes eventos constituem certamente uma mais valia para todos nós, que nos dedicamos à divulgação e salvaguarda do património da nossa terra. 

Conceição Toscano

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O património cultural e o desenvolvimento sustentável

A Europa Nostra, organização de defesa e salvaguarda patrimonial, assume-se como a voz do património cultural na Europa, tendo construído, ao longo de 45 anos, uma rede de ligações com mais de 400 membros e organizações associadas de toda a Europa. Estas instituições assumem um papel fulcral, atendendo à vivência num mundo globalizado em que é vital o património cultural para um convívio de entendimento e respeito entre os cidadãos europeus, uma vez que nos aproxima apesar da existência de diversos antecedentes culturais e étnicos e pode ultrapassar fronteiras nacionais e de língua, como pode ser lido na apresentação da sua página acessível em http://www.europanostra.org/who-we-are/.

De 30 de Maio a 12 de Junho, Portugal foi o centro do património europeu, tendo sido Lisboa o local da realização do Congresso Anual desta organização, que este ano teve como tema «Salvaguardar o património ameaçado da Europa». Este ano, a Europa Nostra distinguiu com o Prémio União Europeia para o Património Cultural a recuperação dos orgãos do Mosteiro de Mafra.

O JL aproveitou a ocasião para entrevistar a secretária-geral da Europa Nostra, Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, tentando perceber quais os sentimentos e objectivos que motivam a missão desta organização e a norteiam nos seus projectos, dentro de uma área de actuação "demasiado importante para as sociedades, para a economia e para a qualidade de vida", nas palavras da entrevistada, que afirma convicta que é a razão de existir da organização a defesa do património, actuando junto dos poderes políticos, com a plena consciência de que "em todos os campos há lobbies, grupos de pressão, organizações não-governamentais" e querem ter a certeza de que em todas as decisões foi pensada a responsabilidade desta herança.
Para Sneska Q-M, a Europa Nostra pretende "promover boas práticas ao nível da proteção do património e das paisagens culturais da Europa.  [...] também queremos fazer soar o alarme e chamar a atenção para o património que está ameaçado". Inquirida acerca dos argumentos de que a Europa Nostra se serve para conquistar a adesão de novos adeptos, a resposta surge emotiva: "Não nos cansamos de dizer que o Património é um recurso gigantesco - são inúmeros os monumentos, museus, sítios arqueológicos, paisagens - mas também muito frágil. Uma vez perdido não pode ser recuperado (só recriado, embora não seja a mesma coisa). Além disso, faz parte da nossa identidade, define-nos. Não podemos conhecer o futuro, mas podemos descobrir o passado através dele. Ou seja, os fundamentos de todo o processo de construção europeia partem do princípio de que partilhamos uma enorme cultura, diversa e plural. É responsabilidade nossa passá-la a outras gerações. A Europa não pode ser construída apenas sob os pilares da Economia."
Para a entrevistada, o inimigo desta visão será "talvez a tendência para se pensar no curto prazo e no lucro fácil. [...] Se retirarmos lições do passado, esta crise pode ser uma oportunidade para o Património Cultural."
Uma oportunidade para "pensar a longo prazo, porque todos sabemos que nada acontece da noite para o dia, sobretudo nesta área." Atendendo às dificuldades de vária ordem sentidas nos dias de hoje, "é normal, com a crise, as pessoas entrarem em pânico e desvalorizarem as políticas de salvaguarda e proteção cultural. Por isso temos de estar ainda mais presentes e melhor organizados."
E como pode o comum cidadão ajudar? "Ninguém pode dizer que cuidar do Património é uma tarefa alheia ou exclusiva do Estado. Nunca foi, nem nunca será. É uma responsabilidade combinada entre público e privado. São as próprias comunidades que têm de o valorizar. E a mais-valia de uma organização como a nossa é conseguir congregar pessoas que partilham de uma mesma noção de defesa do Património. Aqui encontrarão energia e inspiração para fazer coisas diferentes e maravilhosas."
Respondendo à pergunta do jornalista acerca da capacidade de o património gerar emprego e incutir novas dinâmicas nas cidades, a secretária da Europa Nostra responde que há estudos diversos que confirmam esta avaliação. "Uma cidade que protege o seu Património, valorizando os centros históricos, torna-se mais apelativa e aumenta a sua qualidade de vida. E depois uma coisa puxa a outra. Se há um ambiente especial, as empresas querem estar por perto e as pessoas também. O Património é assunto social mas também económico. Isso pode ser decisivo para as pequenas e médias cidades. Os decisores locais têm, por isso, uma grande margem de manobra. É uma grande missão: perceber que cada cidade é única."

Fonte: JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias nº1087, pp.8-9

Esta entrevista assume importância tendo em conta alguns dos assuntos focados para além da missão de apelo à defesa e salvaguarda do património cultural, e de uma união das comunidades que pode extravasar as fronteiras nacionais para o território europeu - a urgente actuação de todos nós na revitalização do tecido com valor histórico e patrimonial das nossas cidades, vilas e aldeias, procurando não somente preservar uma herança, mas potenciando caminhos alternativos de desenvolvimento sustentável social e economicamente, visando uma desejável e merecida melhoria de qualidade de vida.
Conceição Toscano

domingo, 24 de junho de 2012

A inovação tecnológica na história local da industrialização

Na região do estuário do Tejo, nomeadamente na sua margem sul, devido a boas condições, de ordem vária, desde o factor natural, mas também de cariz geográfico e económico, potenciados pela proximidade da capital, desde cedo as populações foram instalando moinhos de maré. Os moinhos de vento igualmente marcaram a paisagem, embora a influência destes últimos tenha sido menor na vida económica do concelho.
O estuário do Tejo desde cedo constituiu um importante centro moageiro, onde estas estruturas robustas se destacavam em terrenos que pertenciam ao concelho e termo de Almada. Inclusive o mais conhecido dos moinhos de maré a nível nacional, o de Corroios, pertenceu ao concelho almadense até 1836.(1)
Os moinhos de maré destacam-se nesta conjuntura da produção moageira da margem sul do Tejo, devido à quantidade de farinha moída e à facilidade de escoamento através de transporte fluvial. Ainda hoje se podem observar algumas destas estruturas nos concelhos que têm margens estuarinas - Seixal, Barreiro e Montijo.
Local testemunho da evolução da manufactura para a produção através do uso da máquina, todo o estuário do Tejo, não sendo terra de produção de cereais, reunia, no entanto, as condições geográficas para receber, do Ribatejo e do Alentejo, o trigo através do transporte fluvial.
Esta paleo-indústria de moagem iria progressivamente dar lugar às fábricas, com maquinaria importada, desaparecendo gradualmente as antigas estruturas. Os cereais e as farinhas suportavam mal os transportes, sendo conveniente instalar as unidades industriais o mais perto possível dos centros urbanos e das vias de acesso (estando Lisboa e a sua Outra Banda localizadas numa potencial zona estratégica para esta implantação), faltando ao promitente interessado no negócio gastar o mínimo possível com a força motriz.

Na sequência de uma já longa tradição local da moagem de cereais, Manuel José Gomes, um proprietário de vários moinhos e cujos antepassados directos também tinham estado ligados ao moinho de maré de Corroios, assume uma postura arrojada de iniciativa pessoal e estabelece novas técnicas de trabalho.
Em 1865, este industrial inaugura os edifícios da fábrica e a doca de desembarque de trigo e embarque da farinha no lugar do Caramujo. Pela sua mão, o espaço da Cova da Piedade revelava, já na segunda metade do século XIX, uma dinâmica de vigor na crescente industrialização.
O desenvolvimento técnico, potenciado pela máquina a vapor, alterava a conjuntura de factores determinantes para a fixação das fábricas. No caso específico do lugar do Caramujo as condições naturais já existiam (nomeadamente proximidade das vias de circulação e de grandes centros urbanos) e um conjunto de infra-estruturas necessárias a este novo mundo laboral iriam começar a surgir: o cais, armazéns, estruturas edificadas para albergar as mós e o maquinismo motriz.

A fábrica de moagem do Caramujo, data não indicada, datada certamente entre 1889 e 1897 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
Nesta foto exemplificativa da primeira fase de existência do complexo moageiro, conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas, a unidade fabril inicial num complexo: de sul para norte (da esquerda para a direita) vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica construída em 1865; separado destes por um vão, alargamento posterior de 1872; por último, o edifício principal construído por volta de 1888-89, inaugurado em 1889. Esta Moagem (nome atribuído às fábricas de farinha), em 1881 estava equipada com 18 pares de mós, sendo considerada a maior fábrica nacional deste sector de actividade industrial.
A partir do momento em que as fábricas substituem as mós de pedra por sistemas novos de moagem, os cilindros de metal, esta indústria abandona o carácter artesanal e entra numa nova era. Os cilindros metálicos constituem a base do denominado «sistema austro-húngaro». São cilindros de fundição endurecida, trabalhados, e que podem ser estriados ou lisos, de dureza variável, conforme o fim a que se destinam. A capacidade da moagem é muito maior  e são aproveitados os subprodutos da farinha espoada. Esta inovação foi o ponto de início da verdadeira moagem moderna. Começava o início do fim da vida útil dos moinhos.
A instalação e crescimento exponencial da indústria moageira na Cova da Piedade - Caramujo, foram dois dos factores impulsionadores do desenvolvimento económico da zona. Como prova da importância desta fábrica já em 1889 podemos apontar a inclusão da tecnologia inovadora atrás referida, o sistema austro-húngaro, na moagem dos cereais. Neste ano, era inaugurado o edifício novo; para além da modernização da fábrica em termos de edificado também há notícias em relação à maquinaria. (2)
Anúncio da fábrica de moagem do Caramujo, publicado no Almanach Comercial, em 1889 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
O desenvolvimento industrial introduzido por Manuel José Gomes continuava a marcar pela referência positiva, agora pelas mãos da sua viúva e filhos, nomeadamente António José Gomes. Como parte fundamental das actividades laborais desenvolvidas em Almada, o lugar do Caramujo apresentava um dinamismo admirável dentro de um quadro económico regional e nacional, nomeadamente tendo em conta a situação apresentada referente à fábrica de moagem da Viúva de Manoel José Gomes & Filhos - para além de empregar 330 operários de todos os ofícios necessários ao fluxo da produção da farinha, laborava durante todos os meses do ano (nem todas as unidades fabris o faziam), tinha um capital considerável, já utilizava a energia eléctrica para iluminação, para além de ter alterado o seu sistema de moagem das mós tradicionais para o inovador sistema tecnológico.

Foi com espanto que colhi as seguintes informações no texto «A formação da classe operária portuguesa e o caso de estudo almadense (1890-1930)», da autoria de Joana Dias Pereira: "A tecnologia era rudimentar. [...] e as mós da Fábrica do Caramujo...»(3)
Todos os elementos que acabei aqui de expor traduzem claramente uma situação completamente contrária à opinião desta investigadora. Os estudos de história local devem trazer o conhecimento dos acontecimentos históricos, sociais e económicos às populações. Quaisquer análises devem ser sempre suportadas por fontes históricas e não devem ser emitidos discursos destituídos de avaliação aprofundada desses documentos e das obras já realizadas acerca da temática, nunca esquecendo que, numa investigação desta natureza, há que conhecer igualmente quer a história económica, quer a história social, nunca perdendo de vista a evolução das técnicas. Sem a prática deste trabalho multidisciplinar, não haverá nunca a percepção abrangente de uma evolução industrial, temática complexa e nunca tão linear que se pegue num só item e se descartem os outros.
Daí a riqueza de estudo que se apresenta ao investigador do património industrial. Daí a riqueza história da Cova da Piedade. Estudar esta temática de uma forma relativa é empobrecedor da nossa história local e redunda em erros de avaliação.

(1) Após a vitória do liberalismo, as reformas administrativas do século XIX, nomeadamente em 1836 (com a publicação do primeiro Código Administrativo, implementando medidas descentralizadoras), trariam alterações administrativas ao território de Almada, que se veria apartado de metade da sua área que passou para o novo concelho do Seixal.

(2) "...em 1890, quando Calvet de Magalhães inquiriu as fábricas de moagem, já empregavam cilindros as fábricas do Caramujo,...", apontado por Jaime Alberto do Couto Ferreira, na sua obra Farinhas, moinhos e moagens, p.211

(3) Publicado nos «Anais de Almada» Revista Cultural, Nºs 13-14; p.145

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cova da Piedade: o associativismo como património cultural

Particularmente importante e fundamental assume-se a actividade de uma associação em concreto: a SFUAP - Sociedade Filarmónica União Artística Piedense. À volta do primeiro objectivo cultural da sua formação, criação de uma banda de música, criaram-se laços de sociabilidade entre operários, corticeiros, metalúrgicos, moageiros, e, mais tarde, da indústria naval, já residentes na zona e também vindos de fora, mas igualmente com demais pessoas de Almada, das mais variadas classes e profissões, desde comerciantes e intelectuais, sentimento saudável em torno de algo que não conhece nem barreiras sociais, nem geográficas - o amor à música; mais tarde, ao teatro, ao desporto e à educação. E igualmente a vontade de contribuir para o desenvolvimento cultural e social dos seus membros, através de actividades recreativas e artísticas, o que fomentou a união entre gentes tão diversas.
A SFUAP é umas das associações representativas do espírito associativo do concelho de Almada. Cultural e socialmente está indelevelmente ligada à evolução da Cova da Piedade, nomeadamente estando a sua sede instalada num dos mais emblemáticos edifícios do património piedense: o palacete de António José Gomes, o industrial, com o seu nome ligado ao apoio à colectividade e a algumas das suas mais prestigiosas e ambiciosas obras na área da cultura, desporto e educação.

Trabalhando no presente, pensando no futuro, nos finais do século XX, houve que levar em conta os novos modos de ocupação dos tempos livres, consequência do progresso tecnológico e evoluções da cultura de massas, tentando evitar a redução da atracção das associações de carácter recreativo e cultural, fomentando um renascer do espírito associativo, criando novas condições de acolhimento por parte das colectividades, melhor adaptadas e ajustadas às novas vivências.
Neste redimensionamento das matrizes identitárias nas sociedades dos nossos dias, com maior urgência há que retornar aos esquemas associativos de outrora, numa procura de reequilíbrio entre o novo e o velho, numa tentativa de alcançar uma justa mediação entre as identidades sociais tradicionais e a cedência a outras momentâneas ou não. A construção harmónica dos indivíduos continua a ser o objectivo e, nessa intenção, é fundamental a existência de vínculos e compromissos duradouros, contrariando a tendencial atomização da vida colectiva.

A história desta associação, o seu percurso de mais de cento e vinte anos, desde 1889, corporiza o diálogo entre um passado e um presente, contribuindo para a contínua consolidação de laços colectivos em torno de sociabilidades e tradições e um interesse sempre actuante no património cultural não somente a nível local.
 
Vista parcial do Largo 5 de Outubro, destacando-se o palacete da família Gomes e a Banda da SFUAP, 1989 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra António José Gomes: o homem e o industrial, p.118)




Palacete nos dias de hoje, fachada lateral

Conceição Toscano

domingo, 17 de junho de 2012

O associativismo na Cova da Piedade

Cova da Piedade, jardim público, anos quarenta do século XX (Fonte: http://metoscano.blogspot.pt/2009/04/preto-e-branco-nos-idos-de-quarenta-sec.html)
"O associativismo representa uma das mais fortes tradições populares de Almada. Uma herança cultural a testemunhar, hoje, que a união faz a força e que , ontem, na solidariedade, na recreação, no convívio [...] se ganhou a consciência colectiva de cada almadense. Uma das raízes culturais mais ricas para alimentar um projecto de sociedade em que «cada um entrega o melhor de si para colher o melhor da comunidade»."
Carlos Abreu e Francisco Branco - O associativismo. Tradição e arte do povo de Almada

A Cova da Piedade seria uma das localidades onde se sentiria com maior pertinência um quadro de evolução profunda, a nível ambiental e industrial, com consequências de ordem desiquilibrante em termos sociais e culturais, motivado pelo crescente desenvolvimento industrial e a colateral afluência de correntes migratórias, oriundas de diferentes pontos do país, particularmente do Alentejo, Algarve e também do Ribatejo e Beiras, para além das vastas terras rurais envolventes.

Quem chegava, vindo de um mundo rural e artesanal, via-se engolido numa dimensão diferente, com valores representativos que os afastavam de quem já cá pertencia. Sós, vivendo em precárias condições, sem traços identificativos à terra que os acolhia e aos seus vizinhos, como construíram algo que os unisse numa vivência conjunta nesse local que começou por ser somente o do posto de trabalho e em lar e em "terra" se tornou? Como criar laços de partilha e de vizinhança com quem também chegou e igualmente com quem já cá vivia? Em que bocadinho do tempo, que poderia eventualmente restar após as longas jornadas de trabalho, se poderiam ter construído redes de convívio ou rememoração das raízes deixadas para trás ou terem evoluído costumes, usos e hábitos tão diversos e diferentes dos existentes localmente para outros onde os traços de identificação foram nascendo e se solidificando?

Sendo tantos iguais nas condições de trabalho, e também nos gostos que permaneciam em cada qual, as necessidades de sobrevivência e de procura de estabilidade identitária e social entre quem chegava e quem aqui vivia, foram supridas em grande parte devido ao movimento associativo, nomeadamente através da pertença a associações de carácter lúdico, ligadas à cultura e ao desporto, mas também de outras com carácter social e de ajuda mútua. Um dos caminhos possíveis para a construção de laços de sociabilidade entre gentes de origens tão diversas, foi a constituição de associações com objectivos comuns. Em torno desta congregação de esforços se foram instituindo novas memórias que ainda hoje perduram como fundamentais na constituição de uma identificação colectiva da comunidade.

Podemos encontrar na base de funcionamento destas organizações o gérmen das ideias democráticas e a união numa corrente de pensamento, que radicava nos desejos de uma vida com melhores condições sociais, culturais, morais, por vezes desempenhando um papel político preponderante, em diversas ocasiões. Entre os seus membros existiam as mais variadas classes e profissões, com um apoio forte de figuras de renome e até de elite, intelectual e patronal, de que é exemplo o impulso e protecção por parte do industrial António José Gomes.

"Dispondo aproximadamente de vinte e cinco colectividades que exercem a sua actividade desportiva, cultural e recreativa em diferentes vertentes do entretenimento e da fruição dos tempos livres, mobilizando mais de 50 mil pessoas, a Cova da Piedade, é ainda, uma localidade onde desde sempre as agremiações populares sempre assumiram um papel destacado na vida da comunidade e na promoção do bem estar dos seus habitantes." (Página da Junta de Freguesia da Cova da Piedade)

Conceição Toscano