quinta-feira, 12 de julho de 2012

A nova entidade tutelar do património cultural

É com ansiedade atenta que muitas organizações e também a nível pessoal aguardam a completa implementação da transformação no panorama do património cultural português.

A nova Direção Geral do Património Cultural (DGPC) (fruto da fusão do Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico e do Instituto dos Museus e da Conservação) e as Direções Regionais de Cultura têm nova orgânica.
Nesta altura, quando ainda o processo não está completo, algumas vozes alertam para os inconvenientes existentes, a falta de diálogo com outros intervenientes na área do património, nomeadamente o Conselho Nacional de Cultura e as Comissões Nacionais Portuguesas do ICOM (Conselho Internacional dos Museus) e ICOMOS (Conselho internacional dos Monumentos e Sítios) e "a profunda centralização,e,mais do que isso, a iniludível governamentalização que ora se pretende instituir". (ler aqui o comunicado das CNPs do ICOM e ICOMOS a propósito da nova orgânica do Património Cultural, no sítio online do GECoRPA - Grémio do Património).

A este propósito, igualmente reflectindo atenção a toda esta dinâmica de completa transformação do órgão que tutelará os destinos do nosso património cultural, resolvi trazer a este blogue excertos de uma entrevista concedida ao JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias por Elísio Summavielle, director-geral desta nova entidade.

Como ponto de início da conversa ES defende que "será possível unir todos os interesses do setor para melhor os defender. Esta nova direção [...] assume-se como o ponto de partida para uma nova visão do Património, centrada nas ideias de trabalho em rede, parcerias e reabilitação urbana." Inquirido acerca do modo como vai actuar durante esta situação de crise, com contenção de despesas, ES responde que "a preocupação centrar-se-á na prevenção e con[serv]ação preventivas, um sistema nacional que ainda não existe. Na área do Património edificado fazemos de dois em dois anos uma monitorização para verificar os estados de conservação. Em casos de risco maior, mesmo não havendo dinheiro, podemos pelo menos evitar derrocadas, acidentes, fazer o mínimo dos mínimos. Sei que é um trabalho invisível - mesmo a sua recuperação - mas absolutamente necessário. Mas não se pode recuperar só por recuperar. Acima de tudo, é preciso criar programas para os espaços que uma vez devolutos são recuperados. Temos de os tornar visitáveis, mas também ocupá-los com novas funções.[...] é preciso criar novos hábitos, novos projetos de utilização, sempre associados a uma noção de conservação preventiva. Se cuidarmos do Património continuadamente, o investimento para a sua manutenção será menor."

Quanto à revitalização de espaços construídos que estejam devolutos estou plenamente de acordo, assim como à orientação para novas funções, até de forma a criar sustentabilidade económica.

Em relação a esta aposta numa conservação preventiva, ES avisa que ainda nada está previsto, mas que "gostava que esta fosse uma filosofia de atuação que envolvesse outros setores do Estado, em particular os do Ordenamento do território, Obras Públicas ou Educação. Temos de formar uma geração para o Património."

Quanto a esta problemática, estou ciente de que realmente muito há ainda para fazer na educação patrimonial, mas seguramente um ponto de partida serão os currículos formais dos vários ciclos de estudo do ensino e também um trabalho de parceria com as associações locais de defesa do património e de história local e também envolvendo os poderes políticos a nível local e central. 
Esta opinião também tem o aval de ES, que considera que nos devemos juntar todos, tendo em conta que "os nossos recursos nunca foram abundantes."

Inquirido acerca da filosofia desta fusão em curso: "Vamos fechar um ciclo que se iniciou nos anos 90 com uma série de Institutos com uma vocação mais disciplinar: de Arqueologia, Arquitectura, Património, Ecologia, Museus. Sempre defendi que o Património cultural requer uma estratégia unívoca e uma gestão integrada. Todas as disciplinas devem ter a sua autonomia, mas também devem ser entendidas num quadro geral de salvaguarda e valorização." Como resposta à questão "a dispersão foi inimiga de uma estratégia comum?", Elísio Summavielle responde que pensa que sim, até porque nunca houve uma verdadeira gestão integrada, tendo-se apercebido, ao longo dos anos de trabalho nesta área, da falta de diálogo entre os diversos organismos. ES afirma que foi "o primeiro Secretário de Estado que veio da área do Património e que tentou defendê-lo publicamente de uma forma unívoca." Estão a recolher alguns frutos dessa estratégia. "Não havia propriamente um diálogo entre turismo e Património. Esse afastamento tende a diluir-se. Quanto maior é a globalização maior é a vontade de contactar com outras identidades. Neste cenário, o Património pode desempenhar um papel importantíssimo. E quando digo que este é o nosso recurso mais importante, também o digo pelo seu valor económico. Por ter as fronteiras mais antigas do mundo e por não ter sido dizimado por duas guerras mundiais, Portugal tem um potencial enorme. Somos um país pequeno mas com uma enorme diversidade cultural."

Na minha opinião, penso que já vai sendo tempo de realmente pensar o património de uma forma multidisciplinar, mas igualmente educar as mentalidades para a educação da salvaguarda do património, não esquecendo que todos os registos patrimoniais têm valor para um povo e não somente os que ainda vão pertencendo a escolhas privilegiadas de actuação, deixando de parte outros, talvez menos considerados.

Acrescento que uma das mais valias do nosso património local (e não só) reside no facto histórico de termos tido uma industrialização com evolução lenta e tardia, configurando uma herança material única, nomeadamente ainda persistindo em Portugal muitos exemplares representativos de um universo fabril  (já desaparecido noutros países e por isso motivo de atenção); estão devolutos e a postos para uma intervenção de reabilitação que possibilite uma revitalização dessas estruturas e consequentemente das zonas envolventes, num verdadeiro trabalho de gestão integrada na área do património. 
Um dos exemplos (já apresentado noutros textos) é o edifício da fábrica de moagem do Caramujo, na Cova da Piedade, no concelho de Almada.
Fábrica de moagem do Caramujo - a espera da intervenção da restauração e reutilização
Caramujo - edifícios existentes na envolvente da fábrica, apresentando igualmente sinais de grave degradação

Fonte dos excertos da entrevista: JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias Nº1087, de 30 de Maio a 12 de Junho de 2012

Conceição Toscano

domingo, 8 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - A arte e a técnica dos jardins

Como complemento de habitabilidade, os jardins situam-se ao lado e nas traseiras da casa, estendendo-se num declive suave, com alguns degraus e sucessivos terraços.
Nota comum a tantos outros jardins, acolhendo características específicas da área rural e da região sul, aqui existe uma construção à medida das necessidades desta sociedade fechada e tradicionalista, com a criação de variados espaços: de cheiros e prazeres no jardim do aparato, o pomar, a estufa, a horta, o pinhal, alamedas de passeios ladeadas por bancos (também situados em lugares de realce, de eixo de caminhos, e na entrada do jardim, lateral ao portão principal do Solar), os tanques, os espaços íntimos (pátios), para além de algumas estruturas arquitectónicas como a Casa de Fresco, ou da Água, e as duas capelas, a do Senhor dos Passos e a de Santo António do Caiado (Ver texto de 1 de Julho).
O Jardim do Aparato do Solar dos Zagallos, situado nas traseiras do edifício
Casa de Fresco ou da Água
Com fins lúdicos e ornamentais assistimos à mesma diversidade azulejar nos jardins, já presenciada na habitação. Enquanto componente essencial da arquitectura portuguesa, o azulejo extravasa do espaço habitado interiormente para o ambiente exterior, em revestimento de patamares de escadarias, e alonga-se, penetrando nos jardins, onde cobre bancos e muros, refresca de azulejo padronizado a Casa da Água, veste de belos painéis as paredes das capelas.
A complementaridade entre as artes decorativas e a natureza cria recantos de lazer e de sociabilidade, representativos da forma de ser e estar dos habitantes da casa, ao longo de três séculos de uso.
A faceta de decoração artística do azulejo ultrapassa, no entanto, o mero ornamento e a funcionalidade para se transfigurar em componente importante no desvendar do corpus social da vivência do espaço.
Um percurso através do espaço ajardinado, situado ao lado e nas traseiras do espaço edificado, transporta o visitante para um mundo complementar de recantos, os pátios.
No mais harmonioso, o Pátio da Estufa, encontramos dois bancos de estrutura arquitectónica singela, mas harmoniosa, apresentando cada um revestimento azulejar em azul sobre branco, no centro do espaldar, emoldurado pelo enquadramento das pilastras e cimalha de rígido formalismo. Envolvendo os episódios historiados, o painel apresenta guarnição de ondas e concheados de azul denso, abrindo as pinceladas em tons esbatidos nos marmoreados.
Um dos quadros visualiza o "jogo da cabra-cega", o outro o "jogo das cartas". Através das pinceladas que se vão esbatendo e de jogos de linhas concorrentes, percebe-se um perspectiva tridimensional, que transfigura a inicial frieza estática em imagens de realismo dinâmico e cenográfico.
Pátio da Estufa - "jogo da cabra-cega"
Pátio da Estufa - "jogo das cartas (este painel tem sofrido sucessivos vandalismos e investidas de roubo; aos ataques sucedem-se os "arranjos estéticos" possíveis
No Pátio do Chá encontramos painéis de diversas épocas, desde o século XVIII até ao passado século, anos quarenta, de que é exemplo a foto seguinte, um painel modernista, com azulejos de figura avulsa de estampilhagem, pintados de forma algo ingénua, apresentando, entre outros motivos estilizados (sol, lua, flores), figuras tradicionais portuguesas e animais dos nossos "Impérios" das quatro partidas do mundo, denotando a influência das correntes ideárias do Estado Novo.
Pátio do Chá
Os restantes painéis são composições de azulejos polícromos de figura avulsa,  imaginativos e esteticamente muito apelativos, com flores ou com pássaros e flores, apresentando ornatos acessórios aos cantos, entremeados por azulejos de faixa, podendo ser datados do século XVIII.
Pátio do Chá
Pátio do Chá
A padronagem de motivos abstractos, em padrão repetido, está presente no muro do jardim e no revestimento da Casa de Fresco e como friso do nicho da parede (ver a segunda foto deste texto). Penso que posso igualmente apontar o século XVIII para a sua produção.
Muro do jardim, junto à Casa de Fresco
O padrão que reveste o banco central de um dos caminhos do jardim situado na zona lateral do Solar é de uma época posterior a estes referidos ultimamente. Os tons são esbatidos e os padrões parecem ser de cariz muito simplificado, marcado por motivo central florido e limites adornados em forma de cercadura. Não obstante essa singeleza e despojamento, o conjunto da aplicação, no centro do espaldar do banco e igualmente na sua base, resulta numa estética adequada ao eixo do jardim onde está situado.
Banco situado no jardim lateral do Solar, numa encruzilhada de caminhos
Pormenor do painel de revestimento do referido banco
O azulejo serve de diálogo entre o passado e o presente e aqui reside o seu poder, que não deve ser encarado como mero elemento decorativo, despojado da capacidade de transmissão de informação.
Reconstituindo a cultura da sociedade que o encomendou, transportou até aos nossos dias imagens da vida social setecentista e de oitocentos, com ligações de actualização de gostos e de modas até ao século XX. As suas capacidades expositivas contêm um poder extraordinário de captar momentos e sentimentos ou simples visões do mundo de outras épocas.
Cena figurativa do painel de azulejos que valoriza um dos bancos do Pátio da Estufa - "jogo da cabra-cega"
Nos bancos apresentando cenas de vida social e cortês, os jogos tradicionais, como o das cartas ou da "cabra-cega", transportam-nos até aos salões de outra época e aos jogos de entretenimento e de galanteria.
As imagens destes quadros deliciosos de ingenuidade e vida cortesã ficam imortalizadas neste suporte material, como se nos detivéssemos perante as páginas de um livro, transportando através do evoluir dos tempos um realismo de representação somente possível graças às características únicas do azulejo, em termos pictóricos e lumínicos.
Este suporte material, executado com mestria de arte e técnica, permite o registo e a transmissão de um património imaterial intangível - a memória dos gestos, dos hábitos sociais de um tempo. O percurso da nossa história é assim mais fácil de conhecer a partir desta leitura de cenas animadas.

Espero que estes percursos de visita ao Solar dos Zagallos tenham possibilitado a todos o conhecimento de um património municipal exemplar a vários níveis - histórico, artístico e cultural. Outros passeios, nomeadamente como o de 30 de Junho, também são desejáveis, sempre com o objectivo da contínua descoberta e consolidação e reforço de aprendizagem.

Conceição Toscano

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - Complementaridade arquitectónica e artística

Em Portugal, o século XVIII é considerado um período de construções. De norte a sul do país, nobreza e burguesia constroem palácios, solares e quintas de recreio; à semelhança do espaço habitado, encontramos uma complementaridade nos jardins de cada uma dessas estruturas.
Nesta quinta, que marca o território da Sobreda com uma impressionante presença física, o seu conjunto edificado, misto de solar residencial e casa agrícola, apresenta características de arquitectura civil e religiosa. Ao longo de três séculos de uso, os seus ocupantes aqui deixaram as suas marcas pessoais, ao nível da evolução de actualizações da moda e dos usos referentes ao espaço habitado, casa e envolvente exterior, aí reflectindo modos de vivência, hábitos sociais e culturais.

O seu património azulejar, visto num percurso de três séculos de arte e técnica decorativa em Portugal, é rico e diversificado. Aqui encontramos os painéis figurativos em contexto profano, destacando-se os exemplares do "salão das mentiras" no piso nobre do solar e os do patamar da escadaria principal, além dos "bancos dos jogos tradicionais", no jardim; os revestimentos padronizados nos corredores da habitação; os painéis figurativos religiosos, nomeadamente na Capela de Santo António e no banco da entrada principal do jardim (Ver texto «Passeios patrimoniais na nossa terra - Sobreda»).

O Solar dos Zagallos apresenta no corpo principal uma escadaria de acesso exterior, central, com um patamar revestido frontalmente de belíssimos painéis, nos quais o artista, em pinceladas de azul, pintou cenas figurativas, emolduradas por motivos geometrizantes e de enquadramentos laterais de meninos-anjos suportando capitéis encimados de jarros com flores. O conjunto dos quatro painéis acentua o impacto visual da entrada do solar, em conjugação com a perspectiva elevada.
Patamar da escadaria principal exterior, painel à esquerda
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à direita
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à esquerda
Na habitação, a escolha do revestimento para as zonas de passagem recai sobre o azulejo de padrão. Devido à repetição de elementos seria menos dispendioso cobrir estas áreas com painéis não figurativos, sendo os historiados reservados para o salão e escadaria principal.
Corredor do piso superior do edifício principal, apresentando composição formal e requintada com medalhão central
No salão nobre, o "salão das mentiras", entramos num local de revestimento de todos os espaços disponíveis entre as molduras das portas e janelas de sacada e a lareira. Os painéis, pensados e calculados pelos artífices para cada intervalo parietal, apresentam cenas figurativas, enquadradas por belas cercaduras polícromas, de dourados e manganês principalmente, encimadas lateralmente por jarros de flores, enquanto frutos coroam centralmente todo o conjunto recortado e saliente na parede. Duas figuras de meninos-anjos, em pinceladas recatadas de azul, dispõem-se de cada lado da moldura, sendo rodeados pelos volteios dourados. Pinceladas de esbatimento em manganês encimam e formam base com as belas e envolventes asas de morcego.
"Salão das mentiras"
"Salão das mentiras"
As cenas figurativas, em azul sobre o branco cerâmico, são cenários campestres, sempre ligados a rios. Barcos ou veleiros e edifícios antigos, por vezes a vista alongando-se numa distância visual de azuis cada vez mais esfumados.

O seu corpo adossado, construído nos inícios do século XIX, é de estilo simples, pombalino, fazendo a ligação da casa principal à Capela de Santo António.
Entrada (piso térreo) do corpo adossado, com formalismo mais simples do que o do piso nobre
Ao invés de os diferentes estilos se oporem, estamos perante uma complementaridade, quer a nível arquitectónico, quer de decoração artística, de revestimento azulejar, de talha, de pintura e de estuque. Um entrosamento excepcionalmente alcançado numa evolução de três séculos, acompanhando as vivências sociais dos seus moradores, adequando-se parte edificada e decorada, numa simbiose e coordenação de funções e formalismos.

Mas o Solar dos Zagallos apresenta outra valência importante, para além do seu valor patrimonial: a de documento vivo de um passado, perpetuado através dos tempos. As fontes de conhecimento da nossa história são muito diversificadas e podem incluir os testemunhos gravados a pedra ou pintados na cerâmica.
O azulejo, como entidade patrimonial multifacetada, transmite-nos conhecimentos não somente estruturais da habitabilidade, decorrentes das suas características decorativas e funcionais, mas igualmente de suporte cénico de vivências sociais e históricas.
Seguindo modas e gostos consoante as épocas atravessadas, o azulejo ajuda-nos a estabelecer cronologias, não somente quanto à evolução da arquitectura e artes decorativas, mas também ao nível do estudo da história, através da análise dos testemunhos materiais de suporte à própria vivência quotidiana (exemplo também a perceber nos seus espaços exteriores).

Terminada esta visita aos espaços arquitectónicos de habitação, agendo para um próximo dia o passeio pelos jardins, igualmente reveladores de um lugar de memória, um espaço de criatividade, um local de encontro do contemporâneo com o antigo.

Conceição Toscano





terça-feira, 3 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - abordagem histórica e patrimonial

Entrada e pátio do Solar, com o patamar da escadaria principal revestido a azulejo
O Solar dos Zagallos, também denominado de Quinta da família Piano ou Quinta dos Pianos, situado na freguesia da Sobreda, para além de um património fulcral na vida local, transformou-se num pólo irradiador de cultura, mercê das várias funções aqui disponibilizadas pela autarquia de Almada.
Cartela identificativa de património municipal situada na entrada principal do Solar
Considero este solar merecedor de estudos que contemplem a sua vertente arquitectónica e as artes decorativas e igualmente a sua história social reflectida no suporte material das estruturas de habitabilidade.
Penso que um dos pontos de destaque patrimonial é sem dúvida o seu espólio azulejar, o figurativo (o religioso e o de carácter profano) e o de padrão ornamental.
Após o passeio de visita ao património religioso da Sobreda, pensei que seria interessante complementar esse percurso com alguns textos e imagens que nos aproximassem de um espaço polivalente e rico de história, apresentando hoje uma introdução e mais tarde alguns desenvolvimentos possibilitando outro tipo de visita, nomeadamente dedicada ao azulejo de cariz civil ou profano, quer padronizado, quer figurativo, nas suas várias e sucessivas desenvolvências no tempo.

A visita que aqui tentarei trazer tem como suporte as fotografias e textos que produzi na sequência de um trabalho efectuado em 2008. Durante as férias que se avizinham é minha intenção rever os espaços então percorridos nessa etapa individual de descoberta deste edifício, talvez potenciando outros projectos ou até tão somente mais registos fotográficos que serão sempre fonte de divulgação do seu valor histórico, artístico e cultural.
Nessa altura, não tendo tido acesso a áreas ainda não intervencionadas e restauradas, concentrei-me em duas entradas, a lateral, no corpo adossado, e a principal na escadaria do pátio; no corredor do piso superior do solar e no salão apelidado de "salão das mentiras"; no recanto mais original do jardim, junto à estufa, percorrendo, no entanto, o restante espaço ajardinado para me deter na casa de fresco.

É, pois, um convite a uma visita que se desenrolará em várias fases, vários dias de escrita e possibilidade de leitura da vossa parte.
Cartela colocada no patamar da escadaria principal de acesso ao piso superior do Solar
Conceição Toscano

domingo, 1 de julho de 2012

Passeios patrimoniais na nossa terra - Sobreda

Realizou-se no sábado, dia 30 de Junho, o passeio de visita ao património religioso da Sobreda, com organização do Centro de Arqueologia de Almada e da Junta de Freguesia da Sobreda. Este evento estava integrado na festa anual do Solar dos Zagallos, um dos espaços culturais da autarquia de Almada, destinado a funções culturais e pedagógicas.

A partir do local do encontro, à porta do Solar, no Largo António José Piano Júnior, situado na parte antiga da vila da Sobreda, o percurso foi-se desenrolando, levando os participantes a conhecer o património religioso público, nomeadamente a Ermida de S. Sebastião, que alberga as imagens do antigo Convento dos Agostinhos Descalços, segundo Francisco Silva (o técnico do Centro de Arqueologia de Almada, nosso guia).
Parte superior da fachada principal da Ermida de S. Sebastião
O passeio continuou com a visita a outra tipologia do património religioso da Sobreda: as capelas particulares. E entramos no espaço do Solar dos Zagallos.

Banco existente no Solar dos Zagallos, com temática bíblica
Capela do Senhor dos Passos
A Capela do Senhor dos Passos é de arquitectura claramente barroca; no entanto, os frontões laterais da fachada principal não são de feitura barroca, na opinião de Francisco Silva. Os painéis de azulejos da fachada narram o calvário de Jesus. 
No interior da capela, a partir do revestimento azulejar das suas paredes, encontramos a narrativa da parábola bíblica do filho pródigo.

O percurso continua até à Capela de  Santo António do Caiado.
Capela de Santo António do Caiado, fachada principal
Pormenor do tecto da Capela de Santo António do Caiado, com um trabalho belíssimo de embrechado
O seu interior, embora de reduzidas dimensões, apresenta-se como um exemplo do trabalho em técnica de embrechado - utilização de porcelana partida e conchas.

A visita termina na Capela de Santo António, que está integrada no Solar dos Zagallos,  mas tem porta principal para o Largo, uma vez que, embora capela privada, tinha utilização pública.
Interior da Capela de Santo António, a mais importante das capelas do Solar. A porta que se vê dá acesso para a rua

Perspectiva do tecto da Capela de Santo António; trabalho mais recente do que o revestimento das paredes, na opinião do nosso guia
Do seu rico revestimento azulejar das paredes constituído por dez painéis, oito deles relatam, em belas composições figurativas, os milagres do Santo. Os seus sermões também são apresentados ao visitante.

Pormenor do revestimento de azulejos: sermão de Santo António aos peixes.
O altar do período barroco revela qualidade artística, já com alguma erudição, constituindo uma peça exemplar e das mais ricas na freguesia da Sobreda, segundo Francisco Silva.

Pormenor do altar da Capela de Santo António, com o seu trabalho em talha dourada
Imagem de Santo António, colocada em nicho lateral no retábulo do altar da Capela de Santo António; datada provavelmente do século XVII, de autor desconhecido
Em 1982 a Câmara Municipal adquiriu o Solar, tendo as obras de recuperação, remodelação e restauro ficado a cargo do arquitecto Vítor Mestre. Durante as intervenções sempre se procurou manter as características originais do conjunto edificado e restantes estruturas. O ponto alto do restauro foi a intervenção no altar da Capela de Santo António da Sobreda.
A importância histórica do Solar reside no facto das capelas existentes na propriedade estarem ligadas às festas populares tradicionais da região, com entrada facultada pelos proprietários, a família Zagallo. A importância desta imagem deve-se ao facto histórico de o culto a Santo António estar presente desde há séculos na Sobreda.
A imagem do Santo está colocada num nicho de um retábulo de talha dourada, apresentando um nicho central, de maiores dimensões, vazio, e dois laterais, iguais, de menor dimensão, estando o da esquerda ocupado pela referida imagem de Santo António. Os nichos estão forrados a seda cor de vinho. Devido à cor negra da indumentária do Santo e do livro, sobressaem unicamente do fundo o rosto e as mãos, efeito visual pretendido pelo artista e pelos responsáveis da colocação da peça no local. Esteticamente a imagem transmite um belo efeito de beatitude interior e de modesta apresentação, sem realce físico corporal.
Quanto aos acabamentos a sua pintura é policroma, sendo as seguintes as cores presentes: preto, dourado, castanhos, cor pele e branco. A sua matéria constituinte é o barro e o sisal.
O seu estado de conservação é deficiente, posto que apresenta colagem evidente e imperfeita na mão direita; a colagem presente no pescoço é pouco perceptível. Há sinais de desagregação na parte inferior da imagem com perdas de camada cromática. A imagem não está completa, uma vez que não apresenta a imagem do menino sobre o livro (só existem restos irregulares de barro). A pintura e o seu estado de  conservação apontam para uma global valorização.

Estas iniciativas são uma forma excelente de divulgação da riqueza histórica a nível local. Devido à importância da tradição religiosa presente na memória colectiva da comunidade da Sobreda, o passeio constituiu uma oportunidade de conhecimento de um património de cariz específico, o religioso. 
Os passeios têm uma dinâmica aberta de relacionamento entre os organizadores e os visitantes, posto que são solicitadas sugestões de outros passeios e demais ideias que o público interessado possa querer propor.

Da minha parte, atribuí nota máxima e ainda fiz algumas propostas. As conversas acerca do património cultural e os conhecimentos que se fazem durante estes eventos constituem certamente uma mais valia para todos nós, que nos dedicamos à divulgação e salvaguarda do património da nossa terra. 

Conceição Toscano

quinta-feira, 28 de junho de 2012

O património cultural e o desenvolvimento sustentável

A Europa Nostra, organização de defesa e salvaguarda patrimonial, assume-se como a voz do património cultural na Europa, tendo construído, ao longo de 45 anos, uma rede de ligações com mais de 400 membros e organizações associadas de toda a Europa. Estas instituições assumem um papel fulcral, atendendo à vivência num mundo globalizado em que é vital o património cultural para um convívio de entendimento e respeito entre os cidadãos europeus, uma vez que nos aproxima apesar da existência de diversos antecedentes culturais e étnicos e pode ultrapassar fronteiras nacionais e de língua, como pode ser lido na apresentação da sua página acessível em http://www.europanostra.org/who-we-are/.

De 30 de Maio a 12 de Junho, Portugal foi o centro do património europeu, tendo sido Lisboa o local da realização do Congresso Anual desta organização, que este ano teve como tema «Salvaguardar o património ameaçado da Europa». Este ano, a Europa Nostra distinguiu com o Prémio União Europeia para o Património Cultural a recuperação dos orgãos do Mosteiro de Mafra.

O JL aproveitou a ocasião para entrevistar a secretária-geral da Europa Nostra, Sneska Quaedvlieg-Mihailovic, tentando perceber quais os sentimentos e objectivos que motivam a missão desta organização e a norteiam nos seus projectos, dentro de uma área de actuação "demasiado importante para as sociedades, para a economia e para a qualidade de vida", nas palavras da entrevistada, que afirma convicta que é a razão de existir da organização a defesa do património, actuando junto dos poderes políticos, com a plena consciência de que "em todos os campos há lobbies, grupos de pressão, organizações não-governamentais" e querem ter a certeza de que em todas as decisões foi pensada a responsabilidade desta herança.
Para Sneska Q-M, a Europa Nostra pretende "promover boas práticas ao nível da proteção do património e das paisagens culturais da Europa.  [...] também queremos fazer soar o alarme e chamar a atenção para o património que está ameaçado". Inquirida acerca dos argumentos de que a Europa Nostra se serve para conquistar a adesão de novos adeptos, a resposta surge emotiva: "Não nos cansamos de dizer que o Património é um recurso gigantesco - são inúmeros os monumentos, museus, sítios arqueológicos, paisagens - mas também muito frágil. Uma vez perdido não pode ser recuperado (só recriado, embora não seja a mesma coisa). Além disso, faz parte da nossa identidade, define-nos. Não podemos conhecer o futuro, mas podemos descobrir o passado através dele. Ou seja, os fundamentos de todo o processo de construção europeia partem do princípio de que partilhamos uma enorme cultura, diversa e plural. É responsabilidade nossa passá-la a outras gerações. A Europa não pode ser construída apenas sob os pilares da Economia."
Para a entrevistada, o inimigo desta visão será "talvez a tendência para se pensar no curto prazo e no lucro fácil. [...] Se retirarmos lições do passado, esta crise pode ser uma oportunidade para o Património Cultural."
Uma oportunidade para "pensar a longo prazo, porque todos sabemos que nada acontece da noite para o dia, sobretudo nesta área." Atendendo às dificuldades de vária ordem sentidas nos dias de hoje, "é normal, com a crise, as pessoas entrarem em pânico e desvalorizarem as políticas de salvaguarda e proteção cultural. Por isso temos de estar ainda mais presentes e melhor organizados."
E como pode o comum cidadão ajudar? "Ninguém pode dizer que cuidar do Património é uma tarefa alheia ou exclusiva do Estado. Nunca foi, nem nunca será. É uma responsabilidade combinada entre público e privado. São as próprias comunidades que têm de o valorizar. E a mais-valia de uma organização como a nossa é conseguir congregar pessoas que partilham de uma mesma noção de defesa do Património. Aqui encontrarão energia e inspiração para fazer coisas diferentes e maravilhosas."
Respondendo à pergunta do jornalista acerca da capacidade de o património gerar emprego e incutir novas dinâmicas nas cidades, a secretária da Europa Nostra responde que há estudos diversos que confirmam esta avaliação. "Uma cidade que protege o seu Património, valorizando os centros históricos, torna-se mais apelativa e aumenta a sua qualidade de vida. E depois uma coisa puxa a outra. Se há um ambiente especial, as empresas querem estar por perto e as pessoas também. O Património é assunto social mas também económico. Isso pode ser decisivo para as pequenas e médias cidades. Os decisores locais têm, por isso, uma grande margem de manobra. É uma grande missão: perceber que cada cidade é única."

Fonte: JL: Jornal de Letras, Artes e Ideias nº1087, pp.8-9

Esta entrevista assume importância tendo em conta alguns dos assuntos focados para além da missão de apelo à defesa e salvaguarda do património cultural, e de uma união das comunidades que pode extravasar as fronteiras nacionais para o território europeu - a urgente actuação de todos nós na revitalização do tecido com valor histórico e patrimonial das nossas cidades, vilas e aldeias, procurando não somente preservar uma herança, mas potenciando caminhos alternativos de desenvolvimento sustentável social e economicamente, visando uma desejável e merecida melhoria de qualidade de vida.
Conceição Toscano

domingo, 24 de junho de 2012

A inovação tecnológica na história local da industrialização

Na região do estuário do Tejo, nomeadamente na sua margem sul, devido a boas condições, de ordem vária, desde o factor natural, mas também de cariz geográfico e económico, potenciados pela proximidade da capital, desde cedo as populações foram instalando moinhos de maré. Os moinhos de vento igualmente marcaram a paisagem, embora a influência destes últimos tenha sido menor na vida económica do concelho.
O estuário do Tejo desde cedo constituiu um importante centro moageiro, onde estas estruturas robustas se destacavam em terrenos que pertenciam ao concelho e termo de Almada. Inclusive o mais conhecido dos moinhos de maré a nível nacional, o de Corroios, pertenceu ao concelho almadense até 1836.(1)
Os moinhos de maré destacam-se nesta conjuntura da produção moageira da margem sul do Tejo, devido à quantidade de farinha moída e à facilidade de escoamento através de transporte fluvial. Ainda hoje se podem observar algumas destas estruturas nos concelhos que têm margens estuarinas - Seixal, Barreiro e Montijo.
Local testemunho da evolução da manufactura para a produção através do uso da máquina, todo o estuário do Tejo, não sendo terra de produção de cereais, reunia, no entanto, as condições geográficas para receber, do Ribatejo e do Alentejo, o trigo através do transporte fluvial.
Esta paleo-indústria de moagem iria progressivamente dar lugar às fábricas, com maquinaria importada, desaparecendo gradualmente as antigas estruturas. Os cereais e as farinhas suportavam mal os transportes, sendo conveniente instalar as unidades industriais o mais perto possível dos centros urbanos e das vias de acesso (estando Lisboa e a sua Outra Banda localizadas numa potencial zona estratégica para esta implantação), faltando ao promitente interessado no negócio gastar o mínimo possível com a força motriz.

Na sequência de uma já longa tradição local da moagem de cereais, Manuel José Gomes, um proprietário de vários moinhos e cujos antepassados directos também tinham estado ligados ao moinho de maré de Corroios, assume uma postura arrojada de iniciativa pessoal e estabelece novas técnicas de trabalho.
Em 1865, este industrial inaugura os edifícios da fábrica e a doca de desembarque de trigo e embarque da farinha no lugar do Caramujo. Pela sua mão, o espaço da Cova da Piedade revelava, já na segunda metade do século XIX, uma dinâmica de vigor na crescente industrialização.
O desenvolvimento técnico, potenciado pela máquina a vapor, alterava a conjuntura de factores determinantes para a fixação das fábricas. No caso específico do lugar do Caramujo as condições naturais já existiam (nomeadamente proximidade das vias de circulação e de grandes centros urbanos) e um conjunto de infra-estruturas necessárias a este novo mundo laboral iriam começar a surgir: o cais, armazéns, estruturas edificadas para albergar as mós e o maquinismo motriz.

A fábrica de moagem do Caramujo, data não indicada, datada certamente entre 1889 e 1897 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
Nesta foto exemplificativa da primeira fase de existência do complexo moageiro, conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas, a unidade fabril inicial num complexo: de sul para norte (da esquerda para a direita) vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica construída em 1865; separado destes por um vão, alargamento posterior de 1872; por último, o edifício principal construído por volta de 1888-89, inaugurado em 1889. Esta Moagem (nome atribuído às fábricas de farinha), em 1881 estava equipada com 18 pares de mós, sendo considerada a maior fábrica nacional deste sector de actividade industrial.
A partir do momento em que as fábricas substituem as mós de pedra por sistemas novos de moagem, os cilindros de metal, esta indústria abandona o carácter artesanal e entra numa nova era. Os cilindros metálicos constituem a base do denominado «sistema austro-húngaro». São cilindros de fundição endurecida, trabalhados, e que podem ser estriados ou lisos, de dureza variável, conforme o fim a que se destinam. A capacidade da moagem é muito maior  e são aproveitados os subprodutos da farinha espoada. Esta inovação foi o ponto de início da verdadeira moagem moderna. Começava o início do fim da vida útil dos moinhos.
A instalação e crescimento exponencial da indústria moageira na Cova da Piedade - Caramujo, foram dois dos factores impulsionadores do desenvolvimento económico da zona. Como prova da importância desta fábrica já em 1889 podemos apontar a inclusão da tecnologia inovadora atrás referida, o sistema austro-húngaro, na moagem dos cereais. Neste ano, era inaugurado o edifício novo; para além da modernização da fábrica em termos de edificado também há notícias em relação à maquinaria. (2)
Anúncio da fábrica de moagem do Caramujo, publicado no Almanach Comercial, em 1889 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
O desenvolvimento industrial introduzido por Manuel José Gomes continuava a marcar pela referência positiva, agora pelas mãos da sua viúva e filhos, nomeadamente António José Gomes. Como parte fundamental das actividades laborais desenvolvidas em Almada, o lugar do Caramujo apresentava um dinamismo admirável dentro de um quadro económico regional e nacional, nomeadamente tendo em conta a situação apresentada referente à fábrica de moagem da Viúva de Manoel José Gomes & Filhos - para além de empregar 330 operários de todos os ofícios necessários ao fluxo da produção da farinha, laborava durante todos os meses do ano (nem todas as unidades fabris o faziam), tinha um capital considerável, já utilizava a energia eléctrica para iluminação, para além de ter alterado o seu sistema de moagem das mós tradicionais para o inovador sistema tecnológico.

Foi com espanto que colhi as seguintes informações no texto «A formação da classe operária portuguesa e o caso de estudo almadense (1890-1930)», da autoria de Joana Dias Pereira: "A tecnologia era rudimentar. [...] e as mós da Fábrica do Caramujo...»(3)
Todos os elementos que acabei aqui de expor traduzem claramente uma situação completamente contrária à opinião desta investigadora. Os estudos de história local devem trazer o conhecimento dos acontecimentos históricos, sociais e económicos às populações. Quaisquer análises devem ser sempre suportadas por fontes históricas e não devem ser emitidos discursos destituídos de avaliação aprofundada desses documentos e das obras já realizadas acerca da temática, nunca esquecendo que, numa investigação desta natureza, há que conhecer igualmente quer a história económica, quer a história social, nunca perdendo de vista a evolução das técnicas. Sem a prática deste trabalho multidisciplinar, não haverá nunca a percepção abrangente de uma evolução industrial, temática complexa e nunca tão linear que se pegue num só item e se descartem os outros.
Daí a riqueza de estudo que se apresenta ao investigador do património industrial. Daí a riqueza história da Cova da Piedade. Estudar esta temática de uma forma relativa é empobrecedor da nossa história local e redunda em erros de avaliação.

(1) Após a vitória do liberalismo, as reformas administrativas do século XIX, nomeadamente em 1836 (com a publicação do primeiro Código Administrativo, implementando medidas descentralizadoras), trariam alterações administrativas ao território de Almada, que se veria apartado de metade da sua área que passou para o novo concelho do Seixal.

(2) "...em 1890, quando Calvet de Magalhães inquiriu as fábricas de moagem, já empregavam cilindros as fábricas do Caramujo,...", apontado por Jaime Alberto do Couto Ferreira, na sua obra Farinhas, moinhos e moagens, p.211

(3) Publicado nos «Anais de Almada» Revista Cultural, Nºs 13-14; p.145