quinta-feira, 14 de junho de 2012

Cova da Piedade: contextualização patrimonial de uma comunidade

O brasão da Cova da Piedade apresenta os elementos que simbolizam os testemunhos mais representativos das actividades económicas que marcaram a evolução desta localidade: a indústria moageira, a tonoaria, a reparação naval e a actividade marítima. Estas representações heráldicas não são meros apontamentos gráficos, mas identificam o carácter predominante da industrialização na identidade colectiva e reflectem uma parte importante do seu tecido socioprofissional e económico. Exemplos concretos de que, para os piedenses, a sua indústria e o operariado a ela ligado, detêm, na sua história e memória colectiva, um estatuto de merecido destaque e de valorização.

Como elementos importantes de um património representativo do seu percurso histórico encontramos a fonte medieval do Pombal, fontanário datado do século XIV, a capela de Sto. Antão, na Ramalha, lugar de culto religioso desde o século XV, a igreja de Nª Sª da Piedade, reconstruída e ampliada após o terramoto de 1755.
Mais recentes, encontramos marcas urbanas do património ligado à época do desenvolvimento industrial: o coreto existente no Largo do jardim público, construído em homenagem à vitória liberal de 1833; o palácio Gomes, morada de família, casa senhorial construída segundo o estilo neoclássico, apresentando uma fachada simétrica, com varandas de ferro forjado no primeiro andar, e as estátuas que rematam superiormente a platibanda, com motivos alusivos à actividade industrial; o chalet Gomes, de estilo profundamente influenciado pela construção além fronteiras, nomeadamente suiça;  a nora de ferro da quinta dos Gomes.
Coreto

Palacete, fachada principal
Podemos acompanhar a evolução histórica da Cova da Piedade, num percurso patrimonial que espelha as alterações económicas e define o sistema de referências locais, desde a ligação do piedense às actividades agrícolas e de carácter artesanal e de proto-industrialização até à recente indústria, com a paisagem referenciada pelos marcos urbanos da época mais recente de evolução tecnológica: o conjunto da fábrica de moagem do Caramujo e dos silos de armazenagem e o imponente pórtico da Lisnave. Emoldurando a zona estuarina, demarcam territorialmente a zona de futuras intervenções de revitalização urbana, assegurando que o desenvolvimento sustentável de uma comunidade não pode virar costas ao seu passado, mas deve sempre alimentar-se das suas vivências de ontem como seiva enriquecedora das raízes que possibilitam o crescimento e fortalecimento de uma identidade colectiva.
Centro histórico da Cova da Piedade, jardim público - à direita, o palacete; ao fundo, ao centro, a fábrica de moagem do Caramujo numa perspectiva de visualização dos silos; no jardim são visíveis o coreto e o restaurante (estrutura arquitectónica completamente desenquadrada da envolvente patrimonial)

Conceição Toscano

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