sábado, 9 de junho de 2012

Uma perspectiva patrimonial do Almaraz

Vista panorâmica do enquadramento geográfico da Quinta do Almaraz, 2008
A Quinta do Almaraz está situada perto do castelo de Almada, entre as freguesias de Cacilhas e de Almada, numa encosta litoral sobranceira ao rio Tejo. Inserida num esporão sobranceiro ao rio, a uma altitude média de 50 metros acima do nível do mar, toda a bacia vestibular do rio Tejo se desdobra à vista, num enquadramento da Serra da Arrábida a Sul e a Norte a Serra de Sintra, balizando o estuário do rio Tejo até à sua foz.
A sua posição geográfica e estratégica, em termos de acessibilidade (rio, oceano, interior), mas  igualmente de defesa, porto e fonte de recursos alimentares, proporcionou condições excelentes para a ocupação humana, desde o neolítico à época romana. A Idade do Ferro foi seguramente a ocupação mais importante de todas as que se sucederam naquele espaço.

As provas materiais já estudadas apontam para a origem da própria cidade de Almada ter tido lugar em Cacilhas, ainda hoje uma das suas portas de entrada. A importância derivaria das condições que Cacilhas ofereceria como local de chegada e partida para a efectivação das trocas comerciais, funcionando como um prolongamento do povoado de Almaraz, situado arriba, e o litoral fluvial.

Em 1986, Luís Barros (arqueólogo) identificou a estação arqueológica da Quinta do Almaraz. Nessa década e na seguinte desenvolvem-se trabalhos de prospecção e escavação que visavam sustentar uma ideia da importância deste arqueosítio.
Perspectiva das escavações - Quinta do Almaraz
Consultada a página da Câmara Municipal de Almada, esta zona é apontada como detendo elevado valor patrimonial (acautelado, posto que a autarquia adquiriu os terrenos), sendo "uma das mais importantes estações arqueológicas fenícias do País"; devido à sua existência "chegavam ao Tejo comerciantes e produtos da bacia do Mediterrâneo, sobretudo cerâmica, tecidos, armas e produtos exóticos. Esta troca comercial terá certamente acelerado a produção na região de diversos produtos, entre os quais, sal, peixe seco e salgado, azeite, vinho, cereais, para além de metais, como o ouro, o cobre, o estanho e o chumbo."
As questões relacionadas com o padrão de povoamento desde sempre se colocaram. Os arqueólogos que têm estudado este povoado continuam a debater-se com mais algumas questões: seria uma feitoria? Ou um porto comercial, como os que existiam no Oriente? Ou uma colónia, como questiona Luísa Batalha? Certa é a aceitação de se tratar de uma ocupação com carácter permanente.
A ocupação posterior do local, a nível agrícola e também como pedreira, poderá ter destruído indícios importantes do que há séculos ali teria existido.

Somente a continuação de trabalhos no local e os estudos possibilitados por essas intervenções no terreno, assim como em colaboração, preferencialmente a nível mais alargado, nacional e peninsular, e transdisciplinar, poderá responder a todas as interrogações ainda existentes acerca da estação arqueológica do Almaraz.

(Alguns dos investigadores que têm estudado o povoado do Almaraz: Armando Sabrosa, Fernando Henriques, João Luís Cardoso, Luís Barros, Luísa Batalha; consultar igualmente  a bibliografia de Ana Margarida Arruda.)

Conceição Toscano

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