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domingo, 10 de junho de 2012

Almaraz: património arqueológico urbano em Almada

Almaraz, vista aérea (Fonte: página da Câmara Municipal de Almada)
Em 1997, no 3º Encontro de Arqueologia Urbana, realizado em Almada, Manuel Paulo Ramos Neto, na época Presidente da Câmara Municipal de Mértola, referia a importância que a arqueologia urbana desempenha quanto ao conhecimento do tecido histórico de vilas e cidades.
Os problemas maiores nesta área poderiam assim ser referidos: os decorrentes de uma ausência a nível educacional e cívico na área do património cultural; a falta de enquadramento legal, originando indisciplinas nas intervenções no subsolo da áreas urbanas já objecto de estudos de delimitação e a falta acentuada de meios humanos com formação profissional adequada.
Na opinião de Fernando Real, também presente no Encontro, o Estado tem participado na salvaguarda do património de uma forma bastante variável, mas, com a publicação da Lei nº13/85, o subsolo das vilas e cidades é valorizado em termos históricos e patrimoniais.
Com a aprovação  da nova lei que regulamenta a política patrimonial portuguesa, Lei nº107/2001, são introduzidas alterações importantes, para além da intensão de um maior rigor e racionalidade ao nível das intervenções e classificações; o Estado, as autarquias e a sociedade civil têm um âmbito alargado de intervenção na salvaguarda do património.
Esta lei define como tarefa primordial do Estado, e dever de todos, proteger e valorizar o património cultural, com a finalidade de contribuir para a melhoria das condições de vida dos cidadãos, social e economicamente, promovendo o desenvolvimento, a nível local e regional. A política de património cultural visa alcançar o "conhecimento, a protecção, a valorização e o crescimento dos bens materiais e imateriais de interesse cultural relevante, bem como dos restantes contextos" (Lei nº107/2001).

E qual poderá e deverá ser o impacto nas cidades e nos seus habitantes, destas intenções escritas?

Nos dias de hoje, o poder local instituído em Almada tem projectos agendados e em prática para a Quinta do Almaraz, considerado "um local único do ponto de vista paisagístico e com um elevado valor patrimonial": uma equipa multidisciplinar desenvolve um trabalho de elaboração de um plano de pormenor nesta zona histórica de Almada, como resultado do estudo de enquadramento estratégico. Os planos da autarquia são mais abrangentes: "A reabilitação desta área de Cacilhas faz parte de uma estratégia mais ampla da autarquia que consiste na requalificação da frente ribeirinha da cidade, promovendo as suas potencialidades turísticas, aumentando o número de ligações entre o rio e a "parte alta" da cidade e a salvaguarda das entidades histórica e social das freguesias abrangidas" (Fonte: página da CMA).

Na minha opinião, Almada e Cacilhas terão neste local, privilegiado em termos de património natural e paisagístico, perspectiva a ter igualmente como referência, um espaço vocacionado para a investigação arqueológica, inserida no local da própria vivência histórica.
A implementação de um plano desta natureza poderá ser uma excelente oportunidade para concretizar um projecto inovador que poderia articular o novo com o antigo, o urbanismo e a paisagem, a preservação e conservação dos testemunhos patrimoniais, mas continuando a impulsionar o desenvolvimento. Almaraz pode ser, a partir de trabalhos convenientemente direccionados, não apenas um propósito realizado de salvaguarda e estudo científico de um património arqueológico urbano, mas também um bom investimento que pode dar óptimos frutos na criação de riqueza , cultural, social e económica a nível local e regional; uma complementaridade plena e multidimensional ao nível da vida comunitária.

Fundamental será sempre dinamizar o envolvimento das populações na vida e na trama histórica do seu legado patrimonial, como factor de coesão na construção de uma memória colectiva.

Conceição Toscano

sábado, 9 de junho de 2012

Uma perspectiva patrimonial do Almaraz

Vista panorâmica do enquadramento geográfico da Quinta do Almaraz, 2008
A Quinta do Almaraz está situada perto do castelo de Almada, entre as freguesias de Cacilhas e de Almada, numa encosta litoral sobranceira ao rio Tejo. Inserida num esporão sobranceiro ao rio, a uma altitude média de 50 metros acima do nível do mar, toda a bacia vestibular do rio Tejo se desdobra à vista, num enquadramento da Serra da Arrábida a Sul e a Norte a Serra de Sintra, balizando o estuário do rio Tejo até à sua foz.
A sua posição geográfica e estratégica, em termos de acessibilidade (rio, oceano, interior), mas  igualmente de defesa, porto e fonte de recursos alimentares, proporcionou condições excelentes para a ocupação humana, desde o neolítico à época romana. A Idade do Ferro foi seguramente a ocupação mais importante de todas as que se sucederam naquele espaço.

As provas materiais já estudadas apontam para a origem da própria cidade de Almada ter tido lugar em Cacilhas, ainda hoje uma das suas portas de entrada. A importância derivaria das condições que Cacilhas ofereceria como local de chegada e partida para a efectivação das trocas comerciais, funcionando como um prolongamento do povoado de Almaraz, situado arriba, e o litoral fluvial.

Em 1986, Luís Barros (arqueólogo) identificou a estação arqueológica da Quinta do Almaraz. Nessa década e na seguinte desenvolvem-se trabalhos de prospecção e escavação que visavam sustentar uma ideia da importância deste arqueosítio.
Perspectiva das escavações - Quinta do Almaraz
Consultada a página da Câmara Municipal de Almada, esta zona é apontada como detendo elevado valor patrimonial (acautelado, posto que a autarquia adquiriu os terrenos), sendo "uma das mais importantes estações arqueológicas fenícias do País"; devido à sua existência "chegavam ao Tejo comerciantes e produtos da bacia do Mediterrâneo, sobretudo cerâmica, tecidos, armas e produtos exóticos. Esta troca comercial terá certamente acelerado a produção na região de diversos produtos, entre os quais, sal, peixe seco e salgado, azeite, vinho, cereais, para além de metais, como o ouro, o cobre, o estanho e o chumbo."
As questões relacionadas com o padrão de povoamento desde sempre se colocaram. Os arqueólogos que têm estudado este povoado continuam a debater-se com mais algumas questões: seria uma feitoria? Ou um porto comercial, como os que existiam no Oriente? Ou uma colónia, como questiona Luísa Batalha? Certa é a aceitação de se tratar de uma ocupação com carácter permanente.
A ocupação posterior do local, a nível agrícola e também como pedreira, poderá ter destruído indícios importantes do que há séculos ali teria existido.

Somente a continuação de trabalhos no local e os estudos possibilitados por essas intervenções no terreno, assim como em colaboração, preferencialmente a nível mais alargado, nacional e peninsular, e transdisciplinar, poderá responder a todas as interrogações ainda existentes acerca da estação arqueológica do Almaraz.

(Alguns dos investigadores que têm estudado o povoado do Almaraz: Armando Sabrosa, Fernando Henriques, João Luís Cardoso, Luís Barros, Luísa Batalha; consultar igualmente  a bibliografia de Ana Margarida Arruda.)

Conceição Toscano

terça-feira, 22 de maio de 2012

O património e a história local em Almada e Seixal

Realizou-se nos dias 19 e 20 de Maio, o Encontro sobre Património de Almada e Seixal, organizado pelo CAA-Centro de Arqueologia de Almada, no âmbito das comemorações do seu 40º aniversário. Ao longo das várias sessões, foram apresentados estudos acerca do património arqueológico, religioso, imaterial e a história local de diferentes freguesias dos concelhos de Almada e do Seixal.




Aqui deixo o elenco das temáticas abordadas:

- «Grutas de S. Paulo: O IV e III milénios em Almada», Luís Barros;
- «Al-madan no contexto da ocupação islâmica da Margem Sul», Maria Inês Raimundo e Vanessa Dias;
- «Três sítios e quintas históricas entre Corroios e Amora», Rui Mendes;
- «Pelos caminhos do Cruzeiro de Vale de Rosal», Vitor Manuel Reis;
- «Trafaria, a história da formação de uma identidade», Carlos Barradas Leal;
- «Breve história da Costa da Caparica», Francisco Silva;
- «Memórias da Caparica pela pena de Bulhão Pato», Rui Caetano;
- «Património naval do Seixal», Elisabete Curtinhal (Ecomuseu Municipal do Seixal);
- «A indústria vinícola em Cacilhas nos séculos XIX e XX», Luís Milheiro;
- «Os espaços e as sociabilidades  das classes trabalhadoras entre 1890 e 1930: os casos de estudo na margem sul do Tejo», Joana Dias;
- «Memórias do cinema em Almada», Ângela Luzia e Margarida Nunes (Museu da Cidade de Almada);
- «Educação patrimonial em Almada - O papel do CAA em Almada», Elisabete Gonçalves.

Estando patente a preocupação com a educação social pelo património, este tipo de iniciativas levadas a cabo pelo CAA, constitui um reforço da divulgação do empenho de vários investigadores no campo da história local e do património, em conjunto com as diversas actividades realizadas no decurso do ano por esta instituição, sempre com o objectivo do alcance do conhecimento necessário e obrigatório para a preservação do património - a aprendizagem geradora de uma consciência de salvaguarda do património e como construção essencial na estruturação de uma memória colectiva.

Conceição Toscano