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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Contributos para o estudo do património de Cacilhas

«O Farol - Associação de Cidadania de Cacilhas» vem desenvolvendo um trabalho de salvaguarda das memórias dos habitantes de Cacilhas, desde há cerca de dez anos.

Como parte importante deste projecto, surgiu a ideia de publicar uma obra que perpetuasse as histórias, fotografias e imagens da Margueira (Margueira Velha e Margueira Nova, apelidadas popularmente de Margueiras) e que coroasse esforços conjuntos dos actuais e antigos habitantes, descendentes e amigos, a partir do apelo do cacilhense Humberto Borges. Com coordenação de Henrique Costa Mota e os dedicados esforços de Modesto Viegas, Luís Filipe Bayó Veiga, Fátima Branco e Nuno Pousinho, surgiu uma obra que vale a pena ler e divulgar, como reforço para o estudo da história local de Cacilhas e de Almada.


 "Este livro não é mais do que uma colectânea de recolha de testemunhos escritos e orais, daqueles que nasceram e viveram no popular sítio das Margueiras, a que se juntam inúmeras imagens, que nos falam e transmitem as vivências populares, os costumes e tradições, a labuta do dia a dia, a vida social, lúdica e associativa dos margueirenses." (Carlos Leal, Presidente da extinta Junta de Freguesia de Cacilhas)

Prefácio da obra (autoria: Maria Conceição Toscano):
Almada, cidade situada na margem sul do estuário do rio Tejo, assistiu, desde meados do século XIX, ao emergir de uma industrialização em parte induzida pela proximidade positiva da capital, mas igualmente potenciada pelas excelentes condições estratégicas do local, nomeadamente bons acessos de abastecimento e escoamento de matérias-primas e produtos transformados.
Na linha costeira da zona estuarina, o local da Margueira evoluiria rapidamente e sofreria transfigurações a nível económico e social, sendo os mais recentes a abertura da nova avenida de ligação entre Cacilhas e Cova da Piedade, nos anos cinquenta do século passado, necessária aos fluxos de tráfego dos novos tempos do desenvolvimento local, e as obras de infra-estruturação e a instalação dos estaleiros da Lisnave, na década seguinte.
Acolhidos como potenciadores de melhores condições de vida das populações locais, despoletaram uma completa transformação do ambiente ribeirinho, culminando, ainda antes do final do século, num clima de crescente recessão industrial, numa relevante preocupação de preservação ambiental e patrimonial do lugar da Margueira.
A intensificação da industrialização nesta área do estuário do Tejo, levou à alteração e completa descaracterização da sua paisagem sócio morfológica, arrastando na voragem da evolução tecnológica, gentes, casario, artes e ofícios tradicionais.
Necessária e premente se tornava a responsabilidade de preservar o passado, transmitindo às gerações seguintes, o legado de quem as precedeu. Estes estudos são cada vez mais necessários num mundo em transformação e por isso havia que fazer um levantamento das memórias do local da Margueira, tendo em mente o objectivo concreto de rastrear testemunhos físicos e imateriais, e a posterior escrita de um testemunho documental.
Esta obra é fruto da vontade inabalável revelada por uma associação de defesa do património cultural, dinamizando o envolvimento da comunidade local almadense, uma vez que se trata da história social e económica de uma parcela do seu território, demonstrando  que o trabalho desenvolvido pode ir ao encontro da intervenção prática do poder local, visto que, no começo de um novo século, assistimos a um fervilhar de ideias e projectos já aprovados de revitalização da margem nascente de Almada, numa tentativa de devolução deste espaço à sua população, embora com diferentes funcionalidades das que ocorreram num passado próximo.
Lembrar os seus antecedentes será certamente um elo de ligação ao fortalecimento e coesão da identidade colectiva, ao proteger memórias com valor patrimonial.

Pintura de Idalina Alves Rebelo (As Margueiras, contracapa)

A nova muralha da Margueira, 1951 (As Margueiras, p.49)

Maria Conceição Toscano

terça-feira, 13 de maio de 2014

Mostra na BN: «Portugal na I Guerra Mundial»

Soldados portugueses na I Guerra Mundial - treino com máscaras de gás (http://www.geocities.ws/atoleiros/Grandeguerra.htm)

Está a decorrer no piso 1 da Biblioteca Nacional, entre 9 de Maio e 31 de Junho, a Mostra «Portugal e a Grande Guerra».

“A exposição Portugal e a Grande Guerra, que pretende assinalar a passagem do primeiro centenário do início do conflito mundial, foi desenvolvida por uma equipa de investigação do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH-UNL), com o apoio da Biblioteca Nacional de Portugal, e organiza-se em torno de dez núcleos temáticos: Portugal e a Guerra; Guerra e Paz: Diplomacia e Relações Externas; Guerra em África; Guerra na Europa – Flandres; Nas trincheiras; Frente interna; Crise/Questão social; Medicina; Arte e Letras; e Memória, que cruzam bibliografia, documentação e iconografia.” (Biblioteca Nacional)

Nesta exposição cruzam-se a história de Portugal, a história universal e a documentação, revelando conteúdos desconhecidos para muitos, uma vez que esta temática somente começa a ser abordada, com um nível satisfatório de aprofundamento, a partir do ensino secundário. Portugal participou com muitos milhares de homens, mais de cem mil, tendo perdido a vida cerca de oito mil, muitos deles nos campos da Flandres. No entanto, muitos dos nossos alunos ignoram que Portugal combateu nas trincheiras de França, vivendo episódios reais e de terrível mortandade. Este é um dos exemplos, mas haverá mais.
Participação de Portugal na I Guerra Mundial (Youtube - acessível em https://www.youtube.com/watch?v=wqUL9Lh534U)

Para além da importância, em termos de evolução histórica, económica e social que este período representa para a humanidade, é crucial perceber que os eventos desta natureza se podem revelar como pontes de trabalho multidisciplinar, reunindo profissionais de vários campos e áreas de trabalho, constituindo uma efectiva mais-valia para o conhecimento da nossa história e do nosso património.
Maria Conceição Toscano

domingo, 8 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - A arte e a técnica dos jardins

Como complemento de habitabilidade, os jardins situam-se ao lado e nas traseiras da casa, estendendo-se num declive suave, com alguns degraus e sucessivos terraços.
Nota comum a tantos outros jardins, acolhendo características específicas da área rural e da região sul, aqui existe uma construção à medida das necessidades desta sociedade fechada e tradicionalista, com a criação de variados espaços: de cheiros e prazeres no jardim do aparato, o pomar, a estufa, a horta, o pinhal, alamedas de passeios ladeadas por bancos (também situados em lugares de realce, de eixo de caminhos, e na entrada do jardim, lateral ao portão principal do Solar), os tanques, os espaços íntimos (pátios), para além de algumas estruturas arquitectónicas como a Casa de Fresco, ou da Água, e as duas capelas, a do Senhor dos Passos e a de Santo António do Caiado (Ver texto de 1 de Julho).
O Jardim do Aparato do Solar dos Zagallos, situado nas traseiras do edifício
Casa de Fresco ou da Água
Com fins lúdicos e ornamentais assistimos à mesma diversidade azulejar nos jardins, já presenciada na habitação. Enquanto componente essencial da arquitectura portuguesa, o azulejo extravasa do espaço habitado interiormente para o ambiente exterior, em revestimento de patamares de escadarias, e alonga-se, penetrando nos jardins, onde cobre bancos e muros, refresca de azulejo padronizado a Casa da Água, veste de belos painéis as paredes das capelas.
A complementaridade entre as artes decorativas e a natureza cria recantos de lazer e de sociabilidade, representativos da forma de ser e estar dos habitantes da casa, ao longo de três séculos de uso.
A faceta de decoração artística do azulejo ultrapassa, no entanto, o mero ornamento e a funcionalidade para se transfigurar em componente importante no desvendar do corpus social da vivência do espaço.
Um percurso através do espaço ajardinado, situado ao lado e nas traseiras do espaço edificado, transporta o visitante para um mundo complementar de recantos, os pátios.
No mais harmonioso, o Pátio da Estufa, encontramos dois bancos de estrutura arquitectónica singela, mas harmoniosa, apresentando cada um revestimento azulejar em azul sobre branco, no centro do espaldar, emoldurado pelo enquadramento das pilastras e cimalha de rígido formalismo. Envolvendo os episódios historiados, o painel apresenta guarnição de ondas e concheados de azul denso, abrindo as pinceladas em tons esbatidos nos marmoreados.
Um dos quadros visualiza o "jogo da cabra-cega", o outro o "jogo das cartas". Através das pinceladas que se vão esbatendo e de jogos de linhas concorrentes, percebe-se um perspectiva tridimensional, que transfigura a inicial frieza estática em imagens de realismo dinâmico e cenográfico.
Pátio da Estufa - "jogo da cabra-cega"
Pátio da Estufa - "jogo das cartas (este painel tem sofrido sucessivos vandalismos e investidas de roubo; aos ataques sucedem-se os "arranjos estéticos" possíveis
No Pátio do Chá encontramos painéis de diversas épocas, desde o século XVIII até ao passado século, anos quarenta, de que é exemplo a foto seguinte, um painel modernista, com azulejos de figura avulsa de estampilhagem, pintados de forma algo ingénua, apresentando, entre outros motivos estilizados (sol, lua, flores), figuras tradicionais portuguesas e animais dos nossos "Impérios" das quatro partidas do mundo, denotando a influência das correntes ideárias do Estado Novo.
Pátio do Chá
Os restantes painéis são composições de azulejos polícromos de figura avulsa,  imaginativos e esteticamente muito apelativos, com flores ou com pássaros e flores, apresentando ornatos acessórios aos cantos, entremeados por azulejos de faixa, podendo ser datados do século XVIII.
Pátio do Chá
Pátio do Chá
A padronagem de motivos abstractos, em padrão repetido, está presente no muro do jardim e no revestimento da Casa de Fresco e como friso do nicho da parede (ver a segunda foto deste texto). Penso que posso igualmente apontar o século XVIII para a sua produção.
Muro do jardim, junto à Casa de Fresco
O padrão que reveste o banco central de um dos caminhos do jardim situado na zona lateral do Solar é de uma época posterior a estes referidos ultimamente. Os tons são esbatidos e os padrões parecem ser de cariz muito simplificado, marcado por motivo central florido e limites adornados em forma de cercadura. Não obstante essa singeleza e despojamento, o conjunto da aplicação, no centro do espaldar do banco e igualmente na sua base, resulta numa estética adequada ao eixo do jardim onde está situado.
Banco situado no jardim lateral do Solar, numa encruzilhada de caminhos
Pormenor do painel de revestimento do referido banco
O azulejo serve de diálogo entre o passado e o presente e aqui reside o seu poder, que não deve ser encarado como mero elemento decorativo, despojado da capacidade de transmissão de informação.
Reconstituindo a cultura da sociedade que o encomendou, transportou até aos nossos dias imagens da vida social setecentista e de oitocentos, com ligações de actualização de gostos e de modas até ao século XX. As suas capacidades expositivas contêm um poder extraordinário de captar momentos e sentimentos ou simples visões do mundo de outras épocas.
Cena figurativa do painel de azulejos que valoriza um dos bancos do Pátio da Estufa - "jogo da cabra-cega"
Nos bancos apresentando cenas de vida social e cortês, os jogos tradicionais, como o das cartas ou da "cabra-cega", transportam-nos até aos salões de outra época e aos jogos de entretenimento e de galanteria.
As imagens destes quadros deliciosos de ingenuidade e vida cortesã ficam imortalizadas neste suporte material, como se nos detivéssemos perante as páginas de um livro, transportando através do evoluir dos tempos um realismo de representação somente possível graças às características únicas do azulejo, em termos pictóricos e lumínicos.
Este suporte material, executado com mestria de arte e técnica, permite o registo e a transmissão de um património imaterial intangível - a memória dos gestos, dos hábitos sociais de um tempo. O percurso da nossa história é assim mais fácil de conhecer a partir desta leitura de cenas animadas.

Espero que estes percursos de visita ao Solar dos Zagallos tenham possibilitado a todos o conhecimento de um património municipal exemplar a vários níveis - histórico, artístico e cultural. Outros passeios, nomeadamente como o de 30 de Junho, também são desejáveis, sempre com o objectivo da contínua descoberta e consolidação e reforço de aprendizagem.

Conceição Toscano

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Solar dos Zagallos - Complementaridade arquitectónica e artística

Em Portugal, o século XVIII é considerado um período de construções. De norte a sul do país, nobreza e burguesia constroem palácios, solares e quintas de recreio; à semelhança do espaço habitado, encontramos uma complementaridade nos jardins de cada uma dessas estruturas.
Nesta quinta, que marca o território da Sobreda com uma impressionante presença física, o seu conjunto edificado, misto de solar residencial e casa agrícola, apresenta características de arquitectura civil e religiosa. Ao longo de três séculos de uso, os seus ocupantes aqui deixaram as suas marcas pessoais, ao nível da evolução de actualizações da moda e dos usos referentes ao espaço habitado, casa e envolvente exterior, aí reflectindo modos de vivência, hábitos sociais e culturais.

O seu património azulejar, visto num percurso de três séculos de arte e técnica decorativa em Portugal, é rico e diversificado. Aqui encontramos os painéis figurativos em contexto profano, destacando-se os exemplares do "salão das mentiras" no piso nobre do solar e os do patamar da escadaria principal, além dos "bancos dos jogos tradicionais", no jardim; os revestimentos padronizados nos corredores da habitação; os painéis figurativos religiosos, nomeadamente na Capela de Santo António e no banco da entrada principal do jardim (Ver texto «Passeios patrimoniais na nossa terra - Sobreda»).

O Solar dos Zagallos apresenta no corpo principal uma escadaria de acesso exterior, central, com um patamar revestido frontalmente de belíssimos painéis, nos quais o artista, em pinceladas de azul, pintou cenas figurativas, emolduradas por motivos geometrizantes e de enquadramentos laterais de meninos-anjos suportando capitéis encimados de jarros com flores. O conjunto dos quatro painéis acentua o impacto visual da entrada do solar, em conjugação com a perspectiva elevada.
Patamar da escadaria principal exterior, painel à esquerda
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à direita
Cena figurativa de um dos painéis de azulejos situados no patamar da escadaria principal, no centro à esquerda
Na habitação, a escolha do revestimento para as zonas de passagem recai sobre o azulejo de padrão. Devido à repetição de elementos seria menos dispendioso cobrir estas áreas com painéis não figurativos, sendo os historiados reservados para o salão e escadaria principal.
Corredor do piso superior do edifício principal, apresentando composição formal e requintada com medalhão central
No salão nobre, o "salão das mentiras", entramos num local de revestimento de todos os espaços disponíveis entre as molduras das portas e janelas de sacada e a lareira. Os painéis, pensados e calculados pelos artífices para cada intervalo parietal, apresentam cenas figurativas, enquadradas por belas cercaduras polícromas, de dourados e manganês principalmente, encimadas lateralmente por jarros de flores, enquanto frutos coroam centralmente todo o conjunto recortado e saliente na parede. Duas figuras de meninos-anjos, em pinceladas recatadas de azul, dispõem-se de cada lado da moldura, sendo rodeados pelos volteios dourados. Pinceladas de esbatimento em manganês encimam e formam base com as belas e envolventes asas de morcego.
"Salão das mentiras"
"Salão das mentiras"
As cenas figurativas, em azul sobre o branco cerâmico, são cenários campestres, sempre ligados a rios. Barcos ou veleiros e edifícios antigos, por vezes a vista alongando-se numa distância visual de azuis cada vez mais esfumados.

O seu corpo adossado, construído nos inícios do século XIX, é de estilo simples, pombalino, fazendo a ligação da casa principal à Capela de Santo António.
Entrada (piso térreo) do corpo adossado, com formalismo mais simples do que o do piso nobre
Ao invés de os diferentes estilos se oporem, estamos perante uma complementaridade, quer a nível arquitectónico, quer de decoração artística, de revestimento azulejar, de talha, de pintura e de estuque. Um entrosamento excepcionalmente alcançado numa evolução de três séculos, acompanhando as vivências sociais dos seus moradores, adequando-se parte edificada e decorada, numa simbiose e coordenação de funções e formalismos.

Mas o Solar dos Zagallos apresenta outra valência importante, para além do seu valor patrimonial: a de documento vivo de um passado, perpetuado através dos tempos. As fontes de conhecimento da nossa história são muito diversificadas e podem incluir os testemunhos gravados a pedra ou pintados na cerâmica.
O azulejo, como entidade patrimonial multifacetada, transmite-nos conhecimentos não somente estruturais da habitabilidade, decorrentes das suas características decorativas e funcionais, mas igualmente de suporte cénico de vivências sociais e históricas.
Seguindo modas e gostos consoante as épocas atravessadas, o azulejo ajuda-nos a estabelecer cronologias, não somente quanto à evolução da arquitectura e artes decorativas, mas também ao nível do estudo da história, através da análise dos testemunhos materiais de suporte à própria vivência quotidiana (exemplo também a perceber nos seus espaços exteriores).

Terminada esta visita aos espaços arquitectónicos de habitação, agendo para um próximo dia o passeio pelos jardins, igualmente reveladores de um lugar de memória, um espaço de criatividade, um local de encontro do contemporâneo com o antigo.

Conceição Toscano





domingo, 24 de junho de 2012

A inovação tecnológica na história local da industrialização

Na região do estuário do Tejo, nomeadamente na sua margem sul, devido a boas condições, de ordem vária, desde o factor natural, mas também de cariz geográfico e económico, potenciados pela proximidade da capital, desde cedo as populações foram instalando moinhos de maré. Os moinhos de vento igualmente marcaram a paisagem, embora a influência destes últimos tenha sido menor na vida económica do concelho.
O estuário do Tejo desde cedo constituiu um importante centro moageiro, onde estas estruturas robustas se destacavam em terrenos que pertenciam ao concelho e termo de Almada. Inclusive o mais conhecido dos moinhos de maré a nível nacional, o de Corroios, pertenceu ao concelho almadense até 1836.(1)
Os moinhos de maré destacam-se nesta conjuntura da produção moageira da margem sul do Tejo, devido à quantidade de farinha moída e à facilidade de escoamento através de transporte fluvial. Ainda hoje se podem observar algumas destas estruturas nos concelhos que têm margens estuarinas - Seixal, Barreiro e Montijo.
Local testemunho da evolução da manufactura para a produção através do uso da máquina, todo o estuário do Tejo, não sendo terra de produção de cereais, reunia, no entanto, as condições geográficas para receber, do Ribatejo e do Alentejo, o trigo através do transporte fluvial.
Esta paleo-indústria de moagem iria progressivamente dar lugar às fábricas, com maquinaria importada, desaparecendo gradualmente as antigas estruturas. Os cereais e as farinhas suportavam mal os transportes, sendo conveniente instalar as unidades industriais o mais perto possível dos centros urbanos e das vias de acesso (estando Lisboa e a sua Outra Banda localizadas numa potencial zona estratégica para esta implantação), faltando ao promitente interessado no negócio gastar o mínimo possível com a força motriz.

Na sequência de uma já longa tradição local da moagem de cereais, Manuel José Gomes, um proprietário de vários moinhos e cujos antepassados directos também tinham estado ligados ao moinho de maré de Corroios, assume uma postura arrojada de iniciativa pessoal e estabelece novas técnicas de trabalho.
Em 1865, este industrial inaugura os edifícios da fábrica e a doca de desembarque de trigo e embarque da farinha no lugar do Caramujo. Pela sua mão, o espaço da Cova da Piedade revelava, já na segunda metade do século XIX, uma dinâmica de vigor na crescente industrialização.
O desenvolvimento técnico, potenciado pela máquina a vapor, alterava a conjuntura de factores determinantes para a fixação das fábricas. No caso específico do lugar do Caramujo as condições naturais já existiam (nomeadamente proximidade das vias de circulação e de grandes centros urbanos) e um conjunto de infra-estruturas necessárias a este novo mundo laboral iriam começar a surgir: o cais, armazéns, estruturas edificadas para albergar as mós e o maquinismo motriz.

A fábrica de moagem do Caramujo, data não indicada, datada certamente entre 1889 e 1897 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
Nesta foto exemplificativa da primeira fase de existência do complexo moageiro, conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas, a unidade fabril inicial num complexo: de sul para norte (da esquerda para a direita) vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica construída em 1865; separado destes por um vão, alargamento posterior de 1872; por último, o edifício principal construído por volta de 1888-89, inaugurado em 1889. Esta Moagem (nome atribuído às fábricas de farinha), em 1881 estava equipada com 18 pares de mós, sendo considerada a maior fábrica nacional deste sector de actividade industrial.
A partir do momento em que as fábricas substituem as mós de pedra por sistemas novos de moagem, os cilindros de metal, esta indústria abandona o carácter artesanal e entra numa nova era. Os cilindros metálicos constituem a base do denominado «sistema austro-húngaro». São cilindros de fundição endurecida, trabalhados, e que podem ser estriados ou lisos, de dureza variável, conforme o fim a que se destinam. A capacidade da moagem é muito maior  e são aproveitados os subprodutos da farinha espoada. Esta inovação foi o ponto de início da verdadeira moagem moderna. Começava o início do fim da vida útil dos moinhos.
A instalação e crescimento exponencial da indústria moageira na Cova da Piedade - Caramujo, foram dois dos factores impulsionadores do desenvolvimento económico da zona. Como prova da importância desta fábrica já em 1889 podemos apontar a inclusão da tecnologia inovadora atrás referida, o sistema austro-húngaro, na moagem dos cereais. Neste ano, era inaugurado o edifício novo; para além da modernização da fábrica em termos de edificado também há notícias em relação à maquinaria. (2)
Anúncio da fábrica de moagem do Caramujo, publicado no Almanach Comercial, em 1889 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
O desenvolvimento industrial introduzido por Manuel José Gomes continuava a marcar pela referência positiva, agora pelas mãos da sua viúva e filhos, nomeadamente António José Gomes. Como parte fundamental das actividades laborais desenvolvidas em Almada, o lugar do Caramujo apresentava um dinamismo admirável dentro de um quadro económico regional e nacional, nomeadamente tendo em conta a situação apresentada referente à fábrica de moagem da Viúva de Manoel José Gomes & Filhos - para além de empregar 330 operários de todos os ofícios necessários ao fluxo da produção da farinha, laborava durante todos os meses do ano (nem todas as unidades fabris o faziam), tinha um capital considerável, já utilizava a energia eléctrica para iluminação, para além de ter alterado o seu sistema de moagem das mós tradicionais para o inovador sistema tecnológico.

Foi com espanto que colhi as seguintes informações no texto «A formação da classe operária portuguesa e o caso de estudo almadense (1890-1930)», da autoria de Joana Dias Pereira: "A tecnologia era rudimentar. [...] e as mós da Fábrica do Caramujo...»(3)
Todos os elementos que acabei aqui de expor traduzem claramente uma situação completamente contrária à opinião desta investigadora. Os estudos de história local devem trazer o conhecimento dos acontecimentos históricos, sociais e económicos às populações. Quaisquer análises devem ser sempre suportadas por fontes históricas e não devem ser emitidos discursos destituídos de avaliação aprofundada desses documentos e das obras já realizadas acerca da temática, nunca esquecendo que, numa investigação desta natureza, há que conhecer igualmente quer a história económica, quer a história social, nunca perdendo de vista a evolução das técnicas. Sem a prática deste trabalho multidisciplinar, não haverá nunca a percepção abrangente de uma evolução industrial, temática complexa e nunca tão linear que se pegue num só item e se descartem os outros.
Daí a riqueza de estudo que se apresenta ao investigador do património industrial. Daí a riqueza história da Cova da Piedade. Estudar esta temática de uma forma relativa é empobrecedor da nossa história local e redunda em erros de avaliação.

(1) Após a vitória do liberalismo, as reformas administrativas do século XIX, nomeadamente em 1836 (com a publicação do primeiro Código Administrativo, implementando medidas descentralizadoras), trariam alterações administrativas ao território de Almada, que se veria apartado de metade da sua área que passou para o novo concelho do Seixal.

(2) "...em 1890, quando Calvet de Magalhães inquiriu as fábricas de moagem, já empregavam cilindros as fábricas do Caramujo,...", apontado por Jaime Alberto do Couto Ferreira, na sua obra Farinhas, moinhos e moagens, p.211

(3) Publicado nos «Anais de Almada» Revista Cultural, Nºs 13-14; p.145

terça-feira, 5 de junho de 2012

Arquivos empresariais: património documental e fonte histórica

Não obstante a intenção de salvaguarda dos arquivos empresariais, desde há mais de três décadas em Portugal, nomeadamente a partir de promulgação de legislação específica, "considerando a importância decisiva de que poderão revestir-se certos arquivos de empresas privadas, e em particular das de maior antiguidade, relevância económica ou influência política, para o correcto conhecimento histórico da época contemporânea" (Decreto-Lei nº429/77)*, quem se dedica ao estudo do património da área industrial depara-se com a ausência de documentos privados pertencentes às fábricas que tenham cessado a sua actividade e caído no vórtice da falência.

Perdidos, extraviados ou destruídos os suportes de informação da vida empresarial, detidos a título próprio, outras vias têm de ser seguidas na procura de conhecimento, nomeadamente a visita às instituições que têm à sua guarda os documentos necessários à existência em condições legais da actividade económica: os processos de licenciamento acolhidos nos arquivos detêm elementos de inexcedível interesse para o registo da história económica.

Essas fontes documentais, com valor de prova legal e igualmente possuidoras de valor intrínseco, devido à antiguidade e também ao seu carácter único, revelam-se como possuindo uma valência de documento legal, de fonte histórica e de bem cultural. Esse património documental merece ver acautelada a sua salvaguarda. E igualmente ser revelada a sua existência. Os arquivos e os museus são as instituições que poderão efectuar este trabalho de divulgação e conservação dos testemunhos documentais específicos da história económica de uma comunidade.

*Decreto-Lei nº429/77, Diário da República - I Série Nº239, de 15 de Outubro de 1977 (Estabelece normas relativas à salvaguarda de arquivos e bens culturais pertencentes a empresas privadas)

Alvará de licenciamento industrial nº7-M, da Sociedade Industrial Aliança (proprietária da fábrica de moagem do Caramujo), datado provavelmente de 1920 (Ministério da Economia e do Emprego, Divisão de Recursos Arquivísticos e de Expediente, processo de licenciamento industrial 9197)
 Conceição Toscano