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segunda-feira, 23 de julho de 2012

A preservação da memória do trabalho fabril na Cova da Piedade

Definição de património industrial: "Paisagem, sítio, edifício / bens móveis - instalações, máquinas, utensílios que testemunhem a actividade das sociedades economicamente desenvolvidas ou em vias de desenvolvimento, compreendendo as fontes de energia e as matérias-primas, os lugares de trabalho, os meios de transporte e utensílios técnicos, o conjunto dos produtos que resultaram da actividade industrial, o conjunto dos documentos escritos, gráficos, fotográficos, os textos administrativos, jurídicos, técnicos e outros." (Fonte: Kits Património: Património industrial, definição elaborada pelo TICCIH (The International Committee for the Conservation of the Industrial Heritage - Comité Internacional para a Conservação do Património Industrial), em 1978; consultar também a Carta de Nizhny sobre o património industrial, de 2003).

O interesse de um património arquitectónico não reside somente na sua estrutura construída, mas também no conhecimento da razão da sua existência. No caso específico do património industrial, as técnicas e as memórias do trabalho são essenciais para a percepção dessa vertente da vida dos homens.
Embora muitas vezes acautelada a protecção dos edifícios, por via da classificação, e da sua envolvente próxima (no caso deste tipo de património, uma integrante fundamental da sua dinâmica formal e funcional), há que lamentar, na maioria dos casos, perdas irreparáveis do seu recheio técnico e de toda a sua documentação empresarial (Ver texto «Arquivos empresariais: património documental e fonte histórica»).

Tomando como exemplo a fábrica de moagem do Caramujo, estando este imóvel já em vias de classificação em 1993, data do seu encerramento, é inaceitável que nada tivesse sido feito no sentido da salvaguarda de tão valioso espólio, representando este arquivo um testemunho importante da história, da memória e da cultura de uma empresa situada num lugar destacado na história económica e social do nosso país. Não representando este tipo de património um marco valioso no panorama cultural nacional não é de estranhar o completo desinteresse por esse valioso acervo documental e técnico, testemunho cultural, histórico ou científico.
Quanto à sua documentação somente restarão os documentos remetidos a organismos oficiais durante a sua existência como entidade industrial, ou pontualmente detidos por particulares que deles se apossaram, tendo percebido o seu conteúdo de mais-valia; quanto a outros testemunhos materiais de relativa pequena dimensão felizmente alguns também ainda existem em colecções particulares e sendo objecto de valorização por parte dos seus donos.
Peças desenhadas, corte transversal (trabalho efectuado pela firma Bühler para a reestruturação da maquinaria da fábrica de moagem do Caramujo, 1962) (fotocópia a preto e branco a partir do original a cores, propriedade de particular)

(Disponibilizada por Francisco Melo Parente, através do Facebook, no grupo «Almada Património Material e Imaterial»)
(Disponibilizada por Carlos Caria, através do Facebook, no grupo «Almada Património Material e Imaterial»)

O património móvel de maiores dimensões, a sua maquinaria, sofreu igual destino - após venda, só conheço oito máquinas que ainda funcionam numa empresa do sector moageiro no concelho de Sesimbra, restando unicamente as memórias fotográficas em alguns periódicos da época e a possibilidade de visualização num outro local.
Anúncio da firma Bühler (Fonte: Boletim FNIM, Ano VIII, Nº30, Abril de 1965 (moinhos de cilindros)
Dois dos moinhos de cilindros existentes até 1993 na fábrica de moagem do Caramujo, Agosto 2010
Num empenho de salvar as memórias de vidas inteiras dedicadas a um trabalho intenso e como tentativa de percepção mais completa da vida laboral desta zona do concelho almadense e recolha e salvaguarda das memórias dos intervenientes, lembrei-me de que a melhor solução seria recorrer a entrevistas aos trabalhadores da fábrica de moagem, um recurso fornecedor de uma pluralidade de dados informativos quanto à descrição dos seus espaços de trabalho, às suas funções específicas dentro da trama hierárquica fabril da moagem, respeitando sempre a sua identidade com os tempos passados.

"O técnico de moagem por vezes também denominado «moleiro» estava no topo da hierarquia e era o responsável máximo pela produção e cujo desempenho ditava o lucro da moagem. [...] A substituição gradual da máquina a vapor por alguns grandes motores eléctricos decorreu durante os anos 50.[...]Em 1963 fez-se a última grande remodelação da moagem com material 'moderno' e foi desmantelada a máquina a vapor (que se encontrava desactivada), por necessidade de espaço. Foi pena, porque actualmente seria muito interessante apreciar o volante enorme, as bielas manivelas em aço brilhante, os tirantes das válvulas, os corpos dos cilindros pintados a vermelho escuro, os bronzes luzidios mancais, etc. [...] Recordo-me ainda das dificuldades que representava por vezes conjugar o funcionamento da máquina com a maquinaria de produção da moagem. [...] Não é difícil de imaginar o conjunto de manobras e a perícia dos operadores para cortarem o acesso do vapor que estava a ser produzido no máximo da potência das caldeiras, pois se não cortassem de imediato o combustível e abrissem as válvulas de escape a pressão de vapor provocaria certamente uma explosão. E depois para repor a máquina em movimento e alcançar a velocidade normal, era preciso restabelecer a pressão do vapor, controlar adequadamente o fluxo de combustível e a quantidade de água. E a moagem não podia funcionar abaixo da sua velocidade nominal pois entre outros inconvenientes a qualidade da farinha sairia prejudicada. [...] Os trabalhos de manutenção da máquina também eram morosos e por isso eram adiados para as paragens aos domingos [...] e era preciso manipular e reparar peças ainda quentes. Havia trabalhos terríveis [...] Por estas razões havia um desejo generalizado de passar à energia eléctrica..." 
(Plenos de pormenores estes excertos das "memórias" de Álvaro Guimarães, o último director fabril, que ao longo dos anos desempenhou várias funções na fábrica de moagem, nomeadamente técnico de moagem).

Os poucos registos que sobreviveram à voracidade da falência e recessão industrial da Cova da Piedade, revestem-se de uma enorme importância para a reprodução deste sistema sócio-técnico. Embora revisitado a partir de citações testemunhais, de fotografias de outros tempos, alguns documentos pessoais, restos de exemplares da produção de outras eras e de recolha documental fotocopiada a partir de originais guardados em arquivos institucionais, o quotidiano laboral poderá ser relativamente recuperado. 

A finalidade desta recuperação seria evidentemente, na minha óptica, a construção de um discurso narrativo, provavelmente de carácter expositivo, um recurso de transmissão da memória histórica e social do Caramujo, e da industrialização da Cova da Piedade, através do complemento articulado de um património de domínio material e imaterial. 

Conceição Toscano

domingo, 24 de junho de 2012

A inovação tecnológica na história local da industrialização

Na região do estuário do Tejo, nomeadamente na sua margem sul, devido a boas condições, de ordem vária, desde o factor natural, mas também de cariz geográfico e económico, potenciados pela proximidade da capital, desde cedo as populações foram instalando moinhos de maré. Os moinhos de vento igualmente marcaram a paisagem, embora a influência destes últimos tenha sido menor na vida económica do concelho.
O estuário do Tejo desde cedo constituiu um importante centro moageiro, onde estas estruturas robustas se destacavam em terrenos que pertenciam ao concelho e termo de Almada. Inclusive o mais conhecido dos moinhos de maré a nível nacional, o de Corroios, pertenceu ao concelho almadense até 1836.(1)
Os moinhos de maré destacam-se nesta conjuntura da produção moageira da margem sul do Tejo, devido à quantidade de farinha moída e à facilidade de escoamento através de transporte fluvial. Ainda hoje se podem observar algumas destas estruturas nos concelhos que têm margens estuarinas - Seixal, Barreiro e Montijo.
Local testemunho da evolução da manufactura para a produção através do uso da máquina, todo o estuário do Tejo, não sendo terra de produção de cereais, reunia, no entanto, as condições geográficas para receber, do Ribatejo e do Alentejo, o trigo através do transporte fluvial.
Esta paleo-indústria de moagem iria progressivamente dar lugar às fábricas, com maquinaria importada, desaparecendo gradualmente as antigas estruturas. Os cereais e as farinhas suportavam mal os transportes, sendo conveniente instalar as unidades industriais o mais perto possível dos centros urbanos e das vias de acesso (estando Lisboa e a sua Outra Banda localizadas numa potencial zona estratégica para esta implantação), faltando ao promitente interessado no negócio gastar o mínimo possível com a força motriz.

Na sequência de uma já longa tradição local da moagem de cereais, Manuel José Gomes, um proprietário de vários moinhos e cujos antepassados directos também tinham estado ligados ao moinho de maré de Corroios, assume uma postura arrojada de iniciativa pessoal e estabelece novas técnicas de trabalho.
Em 1865, este industrial inaugura os edifícios da fábrica e a doca de desembarque de trigo e embarque da farinha no lugar do Caramujo. Pela sua mão, o espaço da Cova da Piedade revelava, já na segunda metade do século XIX, uma dinâmica de vigor na crescente industrialização.
O desenvolvimento técnico, potenciado pela máquina a vapor, alterava a conjuntura de factores determinantes para a fixação das fábricas. No caso específico do lugar do Caramujo as condições naturais já existiam (nomeadamente proximidade das vias de circulação e de grandes centros urbanos) e um conjunto de infra-estruturas necessárias a este novo mundo laboral iriam começar a surgir: o cais, armazéns, estruturas edificadas para albergar as mós e o maquinismo motriz.

A fábrica de moagem do Caramujo, data não indicada, datada certamente entre 1889 e 1897 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
Nesta foto exemplificativa da primeira fase de existência do complexo moageiro, conseguimos perceber o esquema construtivo que transformou, ao longo de três décadas, a unidade fabril inicial num complexo: de sul para norte (da esquerda para a direita) vemos os edifícios geminados, correspondendo à fábrica construída em 1865; separado destes por um vão, alargamento posterior de 1872; por último, o edifício principal construído por volta de 1888-89, inaugurado em 1889. Esta Moagem (nome atribuído às fábricas de farinha), em 1881 estava equipada com 18 pares de mós, sendo considerada a maior fábrica nacional deste sector de actividade industrial.
A partir do momento em que as fábricas substituem as mós de pedra por sistemas novos de moagem, os cilindros de metal, esta indústria abandona o carácter artesanal e entra numa nova era. Os cilindros metálicos constituem a base do denominado «sistema austro-húngaro». São cilindros de fundição endurecida, trabalhados, e que podem ser estriados ou lisos, de dureza variável, conforme o fim a que se destinam. A capacidade da moagem é muito maior  e são aproveitados os subprodutos da farinha espoada. Esta inovação foi o ponto de início da verdadeira moagem moderna. Começava o início do fim da vida útil dos moinhos.
A instalação e crescimento exponencial da indústria moageira na Cova da Piedade - Caramujo, foram dois dos factores impulsionadores do desenvolvimento económico da zona. Como prova da importância desta fábrica já em 1889 podemos apontar a inclusão da tecnologia inovadora atrás referida, o sistema austro-húngaro, na moagem dos cereais. Neste ano, era inaugurado o edifício novo; para além da modernização da fábrica em termos de edificado também há notícias em relação à maquinaria. (2)
Anúncio da fábrica de moagem do Caramujo, publicado no Almanach Comercial, em 1889 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra Almada antiga e moderna - Roteiro iconográfico - Vol. III: Freguesia da Cova da Piedade, p.73)
O desenvolvimento industrial introduzido por Manuel José Gomes continuava a marcar pela referência positiva, agora pelas mãos da sua viúva e filhos, nomeadamente António José Gomes. Como parte fundamental das actividades laborais desenvolvidas em Almada, o lugar do Caramujo apresentava um dinamismo admirável dentro de um quadro económico regional e nacional, nomeadamente tendo em conta a situação apresentada referente à fábrica de moagem da Viúva de Manoel José Gomes & Filhos - para além de empregar 330 operários de todos os ofícios necessários ao fluxo da produção da farinha, laborava durante todos os meses do ano (nem todas as unidades fabris o faziam), tinha um capital considerável, já utilizava a energia eléctrica para iluminação, para além de ter alterado o seu sistema de moagem das mós tradicionais para o inovador sistema tecnológico.

Foi com espanto que colhi as seguintes informações no texto «A formação da classe operária portuguesa e o caso de estudo almadense (1890-1930)», da autoria de Joana Dias Pereira: "A tecnologia era rudimentar. [...] e as mós da Fábrica do Caramujo...»(3)
Todos os elementos que acabei aqui de expor traduzem claramente uma situação completamente contrária à opinião desta investigadora. Os estudos de história local devem trazer o conhecimento dos acontecimentos históricos, sociais e económicos às populações. Quaisquer análises devem ser sempre suportadas por fontes históricas e não devem ser emitidos discursos destituídos de avaliação aprofundada desses documentos e das obras já realizadas acerca da temática, nunca esquecendo que, numa investigação desta natureza, há que conhecer igualmente quer a história económica, quer a história social, nunca perdendo de vista a evolução das técnicas. Sem a prática deste trabalho multidisciplinar, não haverá nunca a percepção abrangente de uma evolução industrial, temática complexa e nunca tão linear que se pegue num só item e se descartem os outros.
Daí a riqueza de estudo que se apresenta ao investigador do património industrial. Daí a riqueza história da Cova da Piedade. Estudar esta temática de uma forma relativa é empobrecedor da nossa história local e redunda em erros de avaliação.

(1) Após a vitória do liberalismo, as reformas administrativas do século XIX, nomeadamente em 1836 (com a publicação do primeiro Código Administrativo, implementando medidas descentralizadoras), trariam alterações administrativas ao território de Almada, que se veria apartado de metade da sua área que passou para o novo concelho do Seixal.

(2) "...em 1890, quando Calvet de Magalhães inquiriu as fábricas de moagem, já empregavam cilindros as fábricas do Caramujo,...", apontado por Jaime Alberto do Couto Ferreira, na sua obra Farinhas, moinhos e moagens, p.211

(3) Publicado nos «Anais de Almada» Revista Cultural, Nºs 13-14; p.145

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Cova da Piedade: o associativismo como património cultural

Particularmente importante e fundamental assume-se a actividade de uma associação em concreto: a SFUAP - Sociedade Filarmónica União Artística Piedense. À volta do primeiro objectivo cultural da sua formação, criação de uma banda de música, criaram-se laços de sociabilidade entre operários, corticeiros, metalúrgicos, moageiros, e, mais tarde, da indústria naval, já residentes na zona e também vindos de fora, mas igualmente com demais pessoas de Almada, das mais variadas classes e profissões, desde comerciantes e intelectuais, sentimento saudável em torno de algo que não conhece nem barreiras sociais, nem geográficas - o amor à música; mais tarde, ao teatro, ao desporto e à educação. E igualmente a vontade de contribuir para o desenvolvimento cultural e social dos seus membros, através de actividades recreativas e artísticas, o que fomentou a união entre gentes tão diversas.
A SFUAP é umas das associações representativas do espírito associativo do concelho de Almada. Cultural e socialmente está indelevelmente ligada à evolução da Cova da Piedade, nomeadamente estando a sua sede instalada num dos mais emblemáticos edifícios do património piedense: o palacete de António José Gomes, o industrial, com o seu nome ligado ao apoio à colectividade e a algumas das suas mais prestigiosas e ambiciosas obras na área da cultura, desporto e educação.

Trabalhando no presente, pensando no futuro, nos finais do século XX, houve que levar em conta os novos modos de ocupação dos tempos livres, consequência do progresso tecnológico e evoluções da cultura de massas, tentando evitar a redução da atracção das associações de carácter recreativo e cultural, fomentando um renascer do espírito associativo, criando novas condições de acolhimento por parte das colectividades, melhor adaptadas e ajustadas às novas vivências.
Neste redimensionamento das matrizes identitárias nas sociedades dos nossos dias, com maior urgência há que retornar aos esquemas associativos de outrora, numa procura de reequilíbrio entre o novo e o velho, numa tentativa de alcançar uma justa mediação entre as identidades sociais tradicionais e a cedência a outras momentâneas ou não. A construção harmónica dos indivíduos continua a ser o objectivo e, nessa intenção, é fundamental a existência de vínculos e compromissos duradouros, contrariando a tendencial atomização da vida colectiva.

A história desta associação, o seu percurso de mais de cento e vinte anos, desde 1889, corporiza o diálogo entre um passado e um presente, contribuindo para a contínua consolidação de laços colectivos em torno de sociabilidades e tradições e um interesse sempre actuante no património cultural não somente a nível local.
 
Vista parcial do Largo 5 de Outubro, destacando-se o palacete da família Gomes e a Banda da SFUAP, 1989 (Fonte: Alexandre M. Flores, da sua obra António José Gomes: o homem e o industrial, p.118)




Palacete nos dias de hoje, fachada lateral

Conceição Toscano

domingo, 17 de junho de 2012

O associativismo na Cova da Piedade

Cova da Piedade, jardim público, anos quarenta do século XX (Fonte: http://metoscano.blogspot.pt/2009/04/preto-e-branco-nos-idos-de-quarenta-sec.html)
"O associativismo representa uma das mais fortes tradições populares de Almada. Uma herança cultural a testemunhar, hoje, que a união faz a força e que , ontem, na solidariedade, na recreação, no convívio [...] se ganhou a consciência colectiva de cada almadense. Uma das raízes culturais mais ricas para alimentar um projecto de sociedade em que «cada um entrega o melhor de si para colher o melhor da comunidade»."
Carlos Abreu e Francisco Branco - O associativismo. Tradição e arte do povo de Almada

A Cova da Piedade seria uma das localidades onde se sentiria com maior pertinência um quadro de evolução profunda, a nível ambiental e industrial, com consequências de ordem desiquilibrante em termos sociais e culturais, motivado pelo crescente desenvolvimento industrial e a colateral afluência de correntes migratórias, oriundas de diferentes pontos do país, particularmente do Alentejo, Algarve e também do Ribatejo e Beiras, para além das vastas terras rurais envolventes.

Quem chegava, vindo de um mundo rural e artesanal, via-se engolido numa dimensão diferente, com valores representativos que os afastavam de quem já cá pertencia. Sós, vivendo em precárias condições, sem traços identificativos à terra que os acolhia e aos seus vizinhos, como construíram algo que os unisse numa vivência conjunta nesse local que começou por ser somente o do posto de trabalho e em lar e em "terra" se tornou? Como criar laços de partilha e de vizinhança com quem também chegou e igualmente com quem já cá vivia? Em que bocadinho do tempo, que poderia eventualmente restar após as longas jornadas de trabalho, se poderiam ter construído redes de convívio ou rememoração das raízes deixadas para trás ou terem evoluído costumes, usos e hábitos tão diversos e diferentes dos existentes localmente para outros onde os traços de identificação foram nascendo e se solidificando?

Sendo tantos iguais nas condições de trabalho, e também nos gostos que permaneciam em cada qual, as necessidades de sobrevivência e de procura de estabilidade identitária e social entre quem chegava e quem aqui vivia, foram supridas em grande parte devido ao movimento associativo, nomeadamente através da pertença a associações de carácter lúdico, ligadas à cultura e ao desporto, mas também de outras com carácter social e de ajuda mútua. Um dos caminhos possíveis para a construção de laços de sociabilidade entre gentes de origens tão diversas, foi a constituição de associações com objectivos comuns. Em torno desta congregação de esforços se foram instituindo novas memórias que ainda hoje perduram como fundamentais na constituição de uma identificação colectiva da comunidade.

Podemos encontrar na base de funcionamento destas organizações o gérmen das ideias democráticas e a união numa corrente de pensamento, que radicava nos desejos de uma vida com melhores condições sociais, culturais, morais, por vezes desempenhando um papel político preponderante, em diversas ocasiões. Entre os seus membros existiam as mais variadas classes e profissões, com um apoio forte de figuras de renome e até de elite, intelectual e patronal, de que é exemplo o impulso e protecção por parte do industrial António José Gomes.

"Dispondo aproximadamente de vinte e cinco colectividades que exercem a sua actividade desportiva, cultural e recreativa em diferentes vertentes do entretenimento e da fruição dos tempos livres, mobilizando mais de 50 mil pessoas, a Cova da Piedade, é ainda, uma localidade onde desde sempre as agremiações populares sempre assumiram um papel destacado na vida da comunidade e na promoção do bem estar dos seus habitantes." (Página da Junta de Freguesia da Cova da Piedade)

Conceição Toscano

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Cova da Piedade: contextualização patrimonial de uma comunidade

O brasão da Cova da Piedade apresenta os elementos que simbolizam os testemunhos mais representativos das actividades económicas que marcaram a evolução desta localidade: a indústria moageira, a tonoaria, a reparação naval e a actividade marítima. Estas representações heráldicas não são meros apontamentos gráficos, mas identificam o carácter predominante da industrialização na identidade colectiva e reflectem uma parte importante do seu tecido socioprofissional e económico. Exemplos concretos de que, para os piedenses, a sua indústria e o operariado a ela ligado, detêm, na sua história e memória colectiva, um estatuto de merecido destaque e de valorização.

Como elementos importantes de um património representativo do seu percurso histórico encontramos a fonte medieval do Pombal, fontanário datado do século XIV, a capela de Sto. Antão, na Ramalha, lugar de culto religioso desde o século XV, a igreja de Nª Sª da Piedade, reconstruída e ampliada após o terramoto de 1755.
Mais recentes, encontramos marcas urbanas do património ligado à época do desenvolvimento industrial: o coreto existente no Largo do jardim público, construído em homenagem à vitória liberal de 1833; o palácio Gomes, morada de família, casa senhorial construída segundo o estilo neoclássico, apresentando uma fachada simétrica, com varandas de ferro forjado no primeiro andar, e as estátuas que rematam superiormente a platibanda, com motivos alusivos à actividade industrial; o chalet Gomes, de estilo profundamente influenciado pela construção além fronteiras, nomeadamente suiça;  a nora de ferro da quinta dos Gomes.
Coreto

Palacete, fachada principal
Podemos acompanhar a evolução histórica da Cova da Piedade, num percurso patrimonial que espelha as alterações económicas e define o sistema de referências locais, desde a ligação do piedense às actividades agrícolas e de carácter artesanal e de proto-industrialização até à recente indústria, com a paisagem referenciada pelos marcos urbanos da época mais recente de evolução tecnológica: o conjunto da fábrica de moagem do Caramujo e dos silos de armazenagem e o imponente pórtico da Lisnave. Emoldurando a zona estuarina, demarcam territorialmente a zona de futuras intervenções de revitalização urbana, assegurando que o desenvolvimento sustentável de uma comunidade não pode virar costas ao seu passado, mas deve sempre alimentar-se das suas vivências de ontem como seiva enriquecedora das raízes que possibilitam o crescimento e fortalecimento de uma identidade colectiva.
Centro histórico da Cova da Piedade, jardim público - à direita, o palacete; ao fundo, ao centro, a fábrica de moagem do Caramujo numa perspectiva de visualização dos silos; no jardim são visíveis o coreto e o restaurante (estrutura arquitectónica completamente desenquadrada da envolvente patrimonial)

Conceição Toscano

sexta-feira, 1 de junho de 2012

História local em Almada: a cidade e o rio

Assistimos, no avançar do século XX, para além das convulsões políticas originadoras de alterações a nível social, às transformações inerentes ao nascimento de uma cidade - a instalação do Arsenal do Alfeite arranca em 1919 com as primeiras obras de terraplanagem; a partir de 1935 as expectativas de maior empregabilidade da zona são reais e começa a movimentação de população, que não terminará nas décadas seguintes, igualmente potenciada pelas grandes obras públicas, como a construção do Cristo-Rei e da Ponte Salazar, e da vinda para Almada dos estaleiros de reparação e construção naval da Lisnave, na década de sessenta.

Tentando colmatar as necessidades de infraestruturação (mais graves a nível da habitação, transportes e abastecimento de água e electricidade) causadas pela chegada de tantos indivíduos, acelera-se a questão da expansão da área metropolitana para sul e a Câmara Municipal de Almada e o Ministério das Obras Públicas criam novos bairros económicos na periferia de Almada, inaugurando em 1942 o Bairro de Nossa Senhora da Piedade.

A estas décadas de dinâmica social e económica, sucederá a recessão total: o declínio da indústria, nomeadamente do importante sector corticeiro e também da moagem (esta já no final da década de oitenta), a crescente terciarização da economia. 
Almada possui um enorme potencial sócio económico devido à sua localização numa frente ribeirinha. A vários níveis - económico e social, principalmente - o rio Tejo impôs-se durante séculos como elemento estruturador.
Constituindo este território de Almada um dos pontos integradores de uma área maior (área metropolitana de Lisboa), na qual o que poderia parecer uma fronteira territorial sempre foi, não um obstáculo, mas uma ponte de interactividade entre cada um dos territórios componentes dos outros concelhos com margens estuarinas, nomeadamente Seixal, Barreiro, Moita, Montijo, a sul, desde cedo se constituíram seguras identificações, com valências diversas, numa dinâmica de influência da capital.

Na actualidade deste início de milénio, Almada (concelho incluído num dos anéis centrais da periferia dessa metrópole), à semelhança de outras autarquias, aposta forte no seu papel de "cidade da água" e na requalificação da sua frente ribeirinha, assumindo o seu passado histórico-cultural, num processo de constante evolução. O projecto Almada Nascente tenciona devolver à população almadense os espaços devolutos da Margueira e do Caramujo, em vida suspensa desde há décadas, devido aos processos de desindustrialização e inexoráveis evoluções tecnológicas e de competitividade a nível global, reinvestindo em novos usos do território, num tendencial renascimento urbano, cultural, social e económico.

Este reordenamento social e produtivo da cidade originará novos e sustentáveis eixos de desenvolvimento citadino, se efectivamente passar de um projecto traçado num papel para uma realidade material, auscultando-se a população e levando em conta os seus anseios e expectativas. 

EDITAL nº1098/2009, Diário da República Nº218, II Série, de 10 de Novembro de 2009 (Plano de Urbanização de Almada Nascente - Cidade da Água - PUAN)

 O Caramujo, na actualidade. Desapossado do cais e em abandono e degradação.

Conceição Toscano

terça-feira, 29 de maio de 2012

O património: novos valores culturais e histórico-sociais

O património, referência valorizante de uma sociedade, nas suas valências de cultura e como contributo para a construção e escrita da história social e económica, revela, como reflexo, a ideologia e mentalidade predominantes de cada época. O longo caminho das novas perspectivas da noção de património alcançou patamares diametralmente opostos, deixando de abranger somente o que dizia respeito aos grupos sociais privilegiados e alterando o paradigma das suas características aceites, nomeadamente monumentalidade e valor estético ou relacionado com as instituições do poder político e religioso.

Um dos potenciais símbolos patrimoniais, quer a nível do seu significado, quer do seu significante, pode ser um estrutura arquitectónica, mesmo que destituída da sua funcionalidade prática. Esse testemunho físico, ao mesmo tempo documento e guardião, transformar-se-á em memorial, passível de se ler como uma narrativa..Retendo e valorizando informações do passado entrelaçadas com significações do presente, têm a função de auxiliares da memória dos homens.

Hoje em dia, a mudança das mentalidades trouxe ao nosso convívio novos conceitos de património, nomeadamente o industrial, ainda tão desconsiderado pela maioria dos intervenientes e estudiosos e das políticas patrimoniais, sendo ainda incompleto e árido o entendimento cultural acerca do valor que possa conter um legado deste tipo. Tendo perdido o uso económico, essa carência e desvitalização é encarada como perda aceitável num processo de evolução social e económica do ciclo de vida produtivo de uma sociedade.

Fábrica de moagem do Caramujo, Cova da Piedade, Abril, 2010 (classificada como imóvel de interesse público em 1997; publicação: Diário da República Nº42-I Série-B, 19 de Fevereiro de 2002, Decreto nº5/2002)

Num processo de evolução ao longo das últimas décadas (perceptível até a nível legislativo), aceita-se que alguns desses testemunhos da técnica possuam valor patrimonial, tendo em conta critérios como a raridade ou a valência arquitectónica excepcional, assumindo-se que também a democratização alcançou a esfera do património e que os locais de trabalho e os maquinismos operados pelas classes trabalhadoras merecem inequivocamente entrar na esfera da salvaguarda ( Lei nº107/2001, que estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural; publicação: Diário da República nº209, I Série-A, 8 de Setembro de 2001).

As populações, empenhadas em conhecer e valorizar a sua história local, devem conferir um novo sentido a esta herança, através do projecto que os novos sujeitos que dele se apropriam lhe quiserem ou puderem atribuir.
Conceição Toscano

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Cova da Piedade - a urgente intervenção de reabilitação da zona estuarina

Em 2010, na sequência da realização da minha dissertação de mestrado, na área do património industrial, fui confrontada com a rápida degradação do conjunto arquitectónico da moagem, depósitos de lixo e presença de desalojados vivendo em meras condições de rua, janelas encerradas com tijolo para evitar a entrada de intrusos.
Pormenor da fachada principal da fábrica de moagem do Caramujo, virada ao antigo cais, Agosto de 2010.

Fachada posterior da fábrica, Rua Manuel José Gomes, Agosto de 2010.

A área ocupada pela Lisnave está a ser intervencionada, nomeadamente ao nível da descontaminação de solos e construção da estruturação sustentável necessária à dinamização dos projectos de revitalização urbanística (e cultural) para o local.
A perspectiva abrangente de uma área a necessitar de urgente reabilitação para uma ainda possível e desejável revitalização - o Caramujo, com a fábrica de moagem (classificada como imóvel de interesse público), e ao lado a Margueira, com os "restos" da Lisnave, bordejando o estuário do Tejo, Março de 2010.

Ocupando uma área extensa, este cemitério, onde ainda subsistem testemunhos que referenciam a actividade encerrada de reparação naval, empresta ao estuário do Tejo, em complemento à decrepitude do edifício imponente da moagem do Caramujo, um enquadramento, cuja leitura pictórica demonstra, mais do que meras palavras o poderiam efectivamente realizar, a dimensão da desindustrialização sofrida a nível local.

Clara ilustração da fisionomia de uma recessão industrial da Cova da Piedade.


Conceição Toscano